27.11.15

Coisas de palco...
Na década de 1960 não havia a chamada caixa de retorno (foldback) voltada para o palco. Músicos tarimbados muitas vezes se perdiam. Era preciso fazer uma ligeiríssima suspensão no andamento da canção para, num átimo, perceber sua posição, não cair n’água – sair do ritmo – e retomar o embalo. Esse tempo felizmente passou, mas roqueiros, metaleiros e outros demônios ainda se defrontam com o problema, a depender do equipamento, recursos de palco etc. e tal.
   A ideia de tecer estes comentários me veio ao ler “Vida”, biografia oficial do Keith Richards, lead guitar dos Stones. Ele toca no problema acima exposto e reafirma seu sonho de voltar a tocar em locais fechados, com assistência reduzida. Por esse e outros motivos e cansado da tecnologia da época, Lennon propôs aos companheiros o encerramento das turnês dos Beatles em estádios, ou arenas, como preferirem. Desabafou John: “Vamos parar com essa merda! Ninguém ouve o que tocamos, nem mesmo nós, e eu não aguento mais essa zorra – referia-se aos fãs, que não iam aos espetáculos a não ser para gritar, se envolver com os de sua idade, admirar de longe seus ídolos, enfim, se afirmar, amar, extravasar, se rebelar.
   Voltando a Richards, diz ele que, quando o megalomaníaco Mick – no dizer dele – inventou palcos gigantescos, ele, Keith, e Watts, batera da banda, foram contra. Enfim, grana em jogo, e quanto mais público mais grana, o tal palco foi encomendado: mais de 50m de boca e não sei quantos de fundo. Nos bastidores da época, sabemos, Banquete dos Mendigos... Só não rolava a “brown sugar”, porcaria se comparada a dos laboratórios Merck.
   A primeira turnê stoniana com palco gigante estreou nos EUA*, aquela da Honky Tonky Women, remember? Em qual cidade não lembro, consultem o Google. Confusão geral. O público ululante nada percebeu, mas os engenheiros de som ficaram loucos e os componentes da banda, desnorteados, “caíram n’água” em algumas passagens. A razão de todo esse desencontro? Ah, quando o lead vocal, Jagger, se afasta dos demais da banda, sua voz leva milésimos de segundos para, propagada pelo sistema de som do estádio, ser captada na volta pelos companheiros. Sabemos algo a respeito da velocidade do som, neh? Pois é, pânico na estreia da turnê. Para o staff promotor do evento, foi como se uma viagem tripulada à Lua tivesse malogrado.
   Ainda não há solução ideal para tal problema técnico, o da propagação do som em certos espaços/ambientes. Segundo Keith Richards, devido ao fato de The Rolling Stones estarem há cinco décadas na estrada, desenvolveram um “esquema” para driblar tamanha dificuldade. Funciona mais ou menos assim: Quando o Mick se distancia muito, todos os seus rebolados, gestos e trejeitos são acompanhados pelo baterista e gerente de palco, Charles Watts. Eles criaram um código. Então, quando o Mick levanta um braço, mexe com a bunda ou algo assim, o batera pega a deixa e corrige imediatamente o ritmo, se necessário. Os outros seguem-no, incontinenti. Ele, de olho no Mick, os outros de olho nele. “Há sempre um atraso, imperceptível, porém, imperdoável. O que fazer?” pergunta-se Richards.

* De alguns anos para cá, notaram? as estreias de turnês mundiais  de certas rockbands têm acontecido no Brasil, Argentina, Austrália, Japão... Por que não em Nova Iorque, Londres, Los Angeles, Paris? Ah, porque os seus produtores acham que, fora do circuito tradicional, tudo não passará de treino, laboratório, de um grande ensaio, com qualidade, certamente, e ninguém perceberá nada se a banda vier a “cair n’água” ou outro problema ocorrer. Que tolos, hein? Ou somos nosotros otários?
 

13.7.15

Dona Carlota, Eu e a Eternidade...

- Vovó vem morar conosco! anunciou uma Lourdes eufórica. Dona Carlota era sua avó materna, minha bisavó e tataravó de minha filha Marina, que não a conheceu. O telegrama, ou western, como algumas pessoas nominavam aquele papel com boas ou más notícias, chegou por volta do almoço. Eu conhecera vovó Carlota em Salvador, onde passávamos os verões, mas aos seis anos de idade sua imagem fugia-me à mente, esfumava-se. 
   Em casa havia telefone, linha 48, uma das cem então disponíveis à diminuta população da urbe, mas não realizava chamadas interurbanas. Para esse tipo de comunicação o telégrafo imperava, absoluto. Montes Claros foi a terceira cidade do país a contar com serviço telefônico automatizado para operações locais. Antes dessa novidade eu precisava pedir à telefonista para me conectar à residência do dr. Deusdará. Certo dia ela me disse, "Você quer falar com o Sérgio? Ele não está em casa, passou por aqui agorinha..." Sérgio era meu melhor amigo e irmão de leite, havíamos nascido na mesma semana e mamãe o amamentara por um mês. A razão dos telefonemas? "Que filme vamos ver hoje?" Quando não tínhamos natação com o mestre Sabu ou inglês com o Sr. Corrêa, logo após cumprido o dever de casa vinha a merenda e a matinê das 4. Aos sábados, futebol ou piquenique e aos domingos, após ouvir missa na Catedral, era sagrada a ida ao cinema para a sessão das 10 da manhã, com direito a seriados do Zorro,Tarzan, Jim das Selvas... 
   Eu compartilhei a alegria da família com a iminente chegada de vovó Carlota, o inverso da tristeza que nos tomara um ano antes, quando a notícia via telégrafo fora a morte de minha avó materna, Edith, única filha dela e de meu bisavô Epiphânio. Partira aos 56 anos - infarto fulminante. Alguns dias depois do golpe, mamãe nos revelou que, pela cara do carteiro, intuíra que o telegrama seria funesto. Telefonistas e carteiros sabiam da vida de todos naqueles tempos. 
   Mas eis que aos 84 anos chega a Montes Claros vovó Carlota. Fomos em dois carros de praça recebê-la no campo de aviação, pois era assim que a maioria do povo chamava aeroporto. Passei muito tempo pronunciando areoporto, como sistematicamente o fazia nosso presidente Castelo Branco. Quando eu o ouvia, após o golpe de 1964, eu me revia. Eu adorava aqueles táxis enormes, Plymouth, Chrysler, Oldsmobile, Ford... Meu preferido era o Mercury branco com vidros ray-bans do Sr. Thomaz. Ele sintonizava o rádio, me deixava acionar o vidro elétrico e ligava o acendedor de cigarros para meu pai. Mas, nessa ida ao campo de aviação, quem nos transportou foram Mário e Maroto, dois dos choferes de praça que mais serviam meu pai, médico, nas corridas para atender a algum chamado. A ida ao antigo aeroporto de Montes Claros merecia uma filmagem documental: estrada de terra - lama ou poeira - atoleiros, facões, gado na pista, galinhas e pintos voando ao passar do automóvel... A companhia aérea que fazia o percurso Salvador-Ilhéus-Pedra Azul-Montes Claros-Pirapora-Belo Horizonte-São Paulo, ida e volta, era a Panair, que tinha como representante na cidade o Sr. Nathércio França. Depois vieram a Nacional, a Cruzeiro, e bem mais tarde a Varig, hoje também extinta. Todas elas utilizavam como equipamento de vôo o velho de guerra e seguro DC-3, até a chegada do turbo-hélice inglês da Varig, o Avro, com capacidade para mais passageiros.
   Dona Carlota Reys de Athayde Cruz, Reys de Athayde em solteira, desembarcou de preto. Trazia luto fechado pela morte da filha. Baixa, gorda, branquíssima, não sorria. Os cabelos presos em coque de há muito estavam brancos e lindos olhos azuis cintilavam em sua face corada, denunciando a ascendência europeia, belga. Ainda usava luvas, rendadas, pretas, caídas de moda no dia a dia, mas permitidas pela sua avançada idade. Mamãe tinha aversão a luto e papai, como os senhores da época, usava apenas o fumo - faixa de crepe preta em torno do braço do paletó, da camisa ou da copa do chapéu. No caso dele, paletó, do chapéu já se livrara. E camisas de mangas curtas somente as usava em praia. Crianças ficavam desobrigadas desse esdrúxulo costume, o luto.
   Vovó não veio de mala-e-cuia como esperávamos. Sua bagagem era reduzida e ficou conosco um mês ou pouco mais. Achou a cidade acanhada e deslumbrou-se com o tom de azul do céu, o mais belo que jamais vira. Algum tempo antes fora ao Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro e só falava nisso. Sobre o imenso aterro do Flamengo, executado e embelezado para acomodar as dezenas de milhares de fiéis presentes ao evento, dizia: " O que o homem toma ao mar, o mar volta a recuperar..." Exortava meus pais a conhecer o Rio, sua prima Arlanza lhes serviria de cicerone lá... E patati-patatá... Havia trazido presentes para todos; ganhei um caminhão dos bombeiros e uma bola.
   Foi uma boa temporada, aquela, mas, assim como veio, vovó Carlota partiu, prometendo retornar para de vez ficar. Sua situação em Salvador tornara-se insustentável após a morte do marido e da filha, minha avó Edith - viviam juntas. Uma das netas e um neto, solteiros, residiam em Salvador, mas tinham suas vidas. No Rio, dois outros netos, também solteiros... Restou-lhe o caminho de Minas e duas opções: morar com o neto José, meu tio e padrinho de batismo, já casado e juiz de direito em Resplendor, ou vir morar com mamãe, a neta Lourdes, em Montes Claros. Escolheu mamãe.
   Dona Carlota não perdeu tempo. Pragmática, tão logo nos deixou resolveu em Salvador o seu futuro. Pelo que sei, via transmissão familiar, ela realizou os bens que lá possuía, repartiu o resultado com os netos até então solteiros, meus tios Carlito, Detinha, Therezinha e Rubinho - mamãe e José abriram mão de suas partes - e resguardou para si os rendimentos semestrais de uma fazendinha de cacau em Belmonte, Bahia, herdada da tia e madrinha Virgínia. Só então voltou a Montes Claros, onde cumpriria o restante dos seus dias.
   Dessa segunda vez veio de mala-e-cuia. Fomos em carro de praça e caminhonete recebê-la no campo de aviação. Roberto e eu aboletados na carroceria do utilitário, comendo poeira como se dizia. A chamada boleia ia vazia, mas voltaria cheia de pertences da avó que chegava. Da primeira vez que esteve conosco, dona Carlota detestou o colchão de molas e travesseiros de espuma nos quais dormia. Mas nada disse. Assim, seus travesseiros e colchão de plumas vieram na aeronave, o colchão enrolado, bem como sua cama, esta desmontada. Daí a necessidade da caminhonete para o transporte de tais comodidades. Malas com roupas foram acomodadas no táxi e algumas caixas completaram a carga da caminhonete. Já em casa, lembro-me de duas dessas caixas sendo abertas. Uma trazia imagens e quadrinhos de santos, castiçais e redomas de vidro; a outra, livros religiosos e romances edificantes, como O Conde de Monte Cristo, que oportunamente ela leria para nós meninos.
   Na nossa casa recém inaugurada, dona Carlota ocupou o cômodo previsto para ser biblioteca e local de estudo. Este não contava com armário embutido. Um guarda-roupa foi comprado e outros móveis compunham o aposento, dentre eles uma cômoda paramentada com rica toalha de linho que ela trouxera e onde acomodou as divindades: crucifixo grande ao centro, ladeado por nossas senhoras em redomas de vidro, São José, Santo Antônio, três imagens de deus menino, outras deidades e dois castiçais em que sempre ardia pelo menos uma vela. O "altar de vovó", batizamos o arranjo. Uma caixa de tamanho médio, colocada sobre o guarda-roupa, chamado por ela de guarda-vestido, só seria aberta por ocasião do Natal - trazia imagens de presépio. Roberto e eu fomos condecorados com medalhas no pescoço, em fino cordão de prata, e na cabeceira de cada um ela pendurou um quadrinho de vidro com a estampa da Virgem Maria. Também nas camas de meus irmãos ausentes, Raymundo e Layce, estudantes em Belo Horizonte, ela pendurou quadrinhos.
    Dona Carlota seguia uma rotina praticamente imutável. Levantava-se às 5h30 e após as abluções matinais abria a janela do quarto, sentava-se na penteadeira, empoava-se e refazia o coque, pois dormia de cabelos soltos após escová-los. Ia então para a poltrona sob a janela e passava a ler algum dos seus livros de oração. Quando sentia o aroma do café a subir da cozinha situada abaixo do quarto, descia para tomá-lo. Sempre havia alguma iguaria baiana no desjejum, fosse aipim (mandioca) na manteiga, batata-doce, mingau de milho verde, beijus ou banana-da-terra em tiras, fritas e polvilhadas com açúcar e canela. Eu adorava essa banana frita, mas nem sempre era encontrada no mercado. Ah, havia também o mingau de maisena em seu cardápio matinal. Terminado o café da manhã, vovó lia com o auxílio de uma grossa lente - odiava óculos - os jornais locais Gazeta do Norte, O Jornal de Montes Claros, comunicados da paróquia da Catedral e o Jornal do Brasil, que chegava aos assinantes de Montes Claros três dias após sua publicação no Rio. Voltava ao quarto de dormir para cuidar da correspondência, escrevia ou respondia alguma carta a bico de pena e passava ao tricô até a hora do almoço.
   Vovó Carlota não era de cozinha. Às vezes apurava o tempero de alguma moqueca. Mas, a pedido nosso, dos meninos, fazia no tacho deliciosas balas de mel, sérias concorrentes das famosas puxas das freiras do colégio. E sorvetes e picolés de babar. Uma vez por semana orientava a cozinheira na feitura de biscoitos que me mandava entregar às amigas da vizinhança, donas Fininha Ribeiro, Mariana Lopes, Geny Souto, Amélia Antunes, Lourdes Teixeira, Nininha Rodrigues, Toinha Deusdará, Maria Santana Machado e Nina Alves França. Vovó não abria geladeira, temia apanhar uma constipação com a corrente de ar gélido... Tomava água do filtro ou da bilha do quarto. E não comia nada fora de hora.
   Mas era um bom garfo, gostava de tudo e, dependendo do prato, adicionava a este uma banana, costume baiano. Na época de pequi, ia de três a quatro, fato raro para os não nascidos nesta região. Boa baiana, não dispensava a farinha e o molho de pimenta introduzido por ela no novo lar, que papai adorava e eu passaria a apreciar. A receita: pimentas malaguetas e cebolas brancas picadas, imersas em suco de limão. Simples e bão. Na casa do irmão mais velho, Raymundo, esse molho vai diariamente à mesa. Após o almoço, vovó subia para o seu quarto, entregava-se à breve e sagrada sesta e nos recebia, os bisnetos, geralmente com algum amigo. Aos poucos o quarto-oratório impregnava-se do que eu chamava o "cheirinho da vovó". Velas, por vezes incenso, aromatizavam o ambiente. Ainda sinto o cheiro de suas roupas e bolsas quando ela abria o guarda-vestido. Havia ali uma bolsa especial, de couro preto com alças, onde ela guardava suas relíquias: fitas e medalhas de irmandades católicas às quais pertencera em Salvador - admirava sobretudo as de Oblatas do Mosteiro de São Bento -, alianças do casamento, chaves do ossário de meu bisavô Epiphânio e, sobrenatural para nós meninos, uma caixinha de madrepérola contendo mecha dos cabelos do finado. Às escondidas, volta e meia eu vasculhava essa bolsa e suponho ter originado aí a minha tara por bolsa de mulher - saber o que vai dentro. Na bolsa havia também uma carteira de marroquim, comprida, que fora de Epiphânio. Nela, fotos do casal, da filha Edith com meu avô Rubens - vovô Mamão, que pouco conheci - dos netos e bisnetos em criança e um artigo já amarelecido do jornal A Tarde, de Salvador, tecendo elogios à camisaria do Senhor Epiphânio Cruz, situada no Largo de São Francisco, onde podiam ser encontrados finos artigos masculinos importados diretamente da Inglaterra e França.
   Lá pelas 4 da tarde vovó tomava o seu banho, se vestia e descia para o café ou chá. Visitava as roseiras do pequeno jardim e sentava-se sempre na mesma cadeira do alpendre para rezar o terço. Eu a observava a passar as contas e mexer com os lábios, murmurando, mas me parecia que o seu olhar andava longe, talvez viajando no passado... A meu ver, ela vivera demais, era a pessoa mais velha que eu conhecia. De vez em quando ela nos mostrava seus álbuns de photographias. Tinham de daguerreótipos até fotos mais recentes, como um exclusivo do Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro, ao qual comparecera. "Quem é essa, vovó?" perguntávamos apontando para alguém num álbum. "Minha amiga Iazinha, já está na eternidade..." respondia ela. "E esse moço?" "O Jonga, boa alma, também na eternidade..." "E esse menino de tranças, vó?" "Meu afilhado Rodolpho, teve morte horrível, atropelado por um bonde. Amputaram-lhe as pernas, mas não resistiu..." Quase todos naqueles álbuns já estavam na eternidade... Eu ficava a pensar: "Quando vovó Carlota irá para a eternidade?" Talvez nunca, concluía, ela é a própria Eternidade!
   Após a sopa - dona Carlota não jantava - ela voltava à sua cadeira do alpendre. Acercávamos dela, nós de casa e meninos da vizinhança, e sentados no chão à sua volta ouvíamos fantásticas histórias do tempo da escravatura, de como ela havia ficado a dois metros do imperador Pedro II em uma de suas idas à Bahia, o luxo que cercava a Corte. Contava também a sua vida, de como passara a morar com a tia e madrinha Virgínia aos 13 anos, após a morte da mãe Anna Reys por complicações de parto. Filha única, não podia acompanhar o pai, Modesto de Athayde, nas suas andanças pelos garimpos. De certa feita, viera ele com seus escravos até a cidade diamantífera de Grão Mogol, próxima a Montes Claros. Desviava cursos de rios e explodia montanhas à dinamite, meu tataravô Modesto, e eram essas as histórias de que os meninos mais gostavam. Em menina, vovó Carlota brincava com diamantes e possuía 13 frascos cheios das pedrinhas. Ela então dava uma pausa na narrativa e, de olhos arregalados, boquiaberto, alguém palpitava : "Então a senhora era riquíssima!" Ou: "Onde foram parar esses diamantes?" Ela ria e continuava: "Não tinham valor algum, somente as pedras maiores eram vendidas." E para vendê-las, cinco ou seis pedras de maior quilate, Modesto se deslocava de vapor ao Rio de Janeiro. De lá essas pedras seguiam para Antuérpia, na Bélgica, ou Amsterdam, Holanda, até hoje os maiores centros de lapidarias do mundo. Com o produto da comercialização das pedras, ele deduzia os custos para obtê-las, enormes, saldava dívidas junto a fornecedores de equipamentos para garimpo, reservava o montante necessário ao seu padrão de vida e partia para uma nova aventura, depois de estação de águas com a mulher e a filha, minha bisavó, em Lençóis, Bahia.
   Nossa família não ficaria completa sem a chegada do extemporâneo Henrique, o novo caçula. Exímia bordadeira, vovó teceu e tricotou quase todo o seu enxoval. Se jamais demonstrara alguma predileção por algum dos bisnetos, o que viria foi o seu xodó. A Roberto e a mim ela presenteava no Natal e aniversários. No dia a dia alguns trocados para as matinês, os gibis e álbuns de figurinhas. A Henrique ela dava brinquedos caros em qualquer época do ano! Roberto e eu, já na segunda infância, não nos incomodávamos com o chamego dos dois e brincávamos a valer com o querido irmão, a rapa do tacho.
   Fomos crescendo e vovó Carlota envelhecendo ainda mais. Já não ia a pé ouvir missa na Catedral. Aos domingos, arrumava-se e ficava a esperar seus amigos Deraldo e Nininha Rodrigues para levarem-na de carro à igreja. Quando alguma procissão ia passar pela nossa porta, ela não tinha a energia de antes para estender sua colcha de brocado na janela e colher flores para ornar os dois vasos colocados sobre a mesma - mamãe a substituía. Em pouco tempo já não ia à missa e suas refeições lhe eram servidas na pequena escrivaninha do quarto – papai a proibira de descer a perigosa escada. Como nunca vivera período inflacionário e a década de 1960 foi pródiga em carestia, ela continuava a entregar a mesma quantia à nossa boa Aparecida para fazer suas compras de farmácia. Certo dia, Aparecida disse a papai: “Dr. Aroldo, o dinheiro de dona Carlota não está dando para comprar o que ela encomenda...” Papai ponderou: “Ela faz questão de comprar suas coisas, que assim seja. Faça o seguinte, mande a farmácia anotar o que ela quiser em minha conta, fique com o dinheiro e entregue algum troco a ela...”         

   A ida do homem à Lua, em 16 de julho de 1969, foi um salto tecnológico sem precedentes na história da humanidade. Estudante em Belo Horizonte, eu passava as férias em casa. Vovó Carlota não acreditava na façanha americana. “É tudo mentira, fizeram um filme em algum deserto, tiraram retratos em alguns cenários...” Não houve meios de convencê-la de que Neil Armstrong pisara o solo do nosso satélite natural aos 20 de julho daquele ano. E aos 23 de dezembro Vovó Carlota partiria para a Eternidade – ruptura dos capilares – às vésperas do seu aniversário. Nascera em 26 de dezembro de 1872. Viveu no planeta Terra quase 97 anos. Salve a eterna Vovó Carlota!

23.1.14

NO TERREIRO DE COUTO - HCTF

Couto foi um dos meus personagens de infância. Sua mãe era dona da pensão   Comércio e ele  de oficina de bicicletas, ambos os estabelecimentos funcionando na praça dr. João Alves, onde minha família residia. Eu tinha alguns amigos que moravam na pensão, os irmãos Jayme, Leônidas e Jarbas Gusmão, colegas do grupo escolar Gonçalves Chaves, que aqui vieram estudar. A praça era o nosso quartel-general. Ali, juntamente com meninos das redondezas, brincávamos de tudo: futebol, soldado e ladrão, pegador, esconde-esconde, cabra cega, finca, bolinha de gude, empinávamos araras, de rabo e surecas, estas destinadas a capturar araras inimigas – passávamos goma com pó de vidro na linha – e outros folguedos da idade. Pilotávamos também carrinhos de rolimã. O piso era inadequado para a prática de patins e skate ainda não existia.
   Quando aos nove anos ganhei minha primeira bike, Monark sueca grená comprada na loja da gráfica Orion, Couto dava a manutenção: colar pneus, lubrificar etc. Lavá-la, minha tarefa, o que eu fazia com prazer. Assim, começamos a frequentar sua oficina, eu e outros meninos também seus clientes. Lembro-me bem de Vaninho Antunes, Dema, Cezinha, Fu, Oswaldinho e Ricardo Souto, meus vizinhos, Raimundo e Ricardo, filhos de Cely e Alberto Paculdino Ferreira. Com a convivência, Couto passou a ser o nosso herói. Ele possuía uma das duas ou três motocicletas então existentes na cidade, BSA preta equipada e tratada como namorada, tamanho o cuidado que dispensava à mesma. Couto era um mocetão de seus vinte e poucos anos, mulato bem apessoado, bigode, e montado nessa moto fazia o diabo. Nas noites de fim de semana, envergava um de seus ternos de linho branco que a mãe lavava, engomava e passava, sapato bico fino de duas cores e se mandava para o baixo meretrício, logo ali abaixo, região da Catedral, onde pontificava o casarão de Roxa, ou mais além, território de Anália na praça de esportes.  Na segunda-feira à tarde, todos reunidos na oficina, ele nos contava suas peripécias com prostitutas, malandros e polícia. Mas não se metia em brigas e jamais fora preso. Foi ali que aprendemos termos – gigolô, gonorréia, cavalo de crista – e coisas de que jamais havíamos suspeitado... Meu pai, médico, tratava as recorrentes blenorragias do nosso vizinho.
   Couto passou a estudar em livros de umbanda, decorar cantigas em nagô, aprendeu a tocar atabaque e, aos poucos, foi deixando reparos de câmaras de ar e lubrificação de bicicletas a cargo de um meninote aprendiz, Gerinha do Morro. Continuou com o serviço de pintura de bicicletas e atendimento mecânico às outras duas ou três motos da cidade. Sua vida, afora a raparigagem, era dedicada cada vez mais aos mistérios do além. Com a morte da mãe e o arrendamento da pensão, viu-se livre para cumprir o seu destino: montou um terreiro de candomblé no bairro Maracanã e para lá se mudou. Salvo engano, a oficina de bicicletas passou a Gerinha, que algum tempo depois montaria oficina de conserto de geladeiras, no que se deu muito bem.
   Perdi o contato com Couto. Fui estudar fora e, quando em férias, ia às vezes à oficina papear com o amigo Gera. Este tornara-se exímio capoeirista, chefiava turma temida nos Morrinhos e, de certa forma, foi uma espécie de meu segurança, pois, quando me encontrava em gritos e bailes de carnaval, ele sempre passava por mim e perguntava: “Algum problema aí?” As brigas entre turmas eram uma constante na época. Ficaram célebres os embates entre as de Gerinha do Morro e Gerinha Português.
   Passados alguns anos, encontrei-me com Couto num dos bares da antiga rodoviária, aonde fôramos comprar cigarros, eu, Geraldo Madureira – Grego – Reinaldinho Oliveira e Hélio Guedes, Patão. Perguntei-lhe sobre o terreiro e ele disse que ia de vento em popa. “Assim de meninas e eu cantando: Já chegou, já chegou, o caboclo mamador; tá na hora, tá na hora, tirem os peitos pra fora...” Em seguida convidou-nos a ir ao terreiro. Mas, à uma da manhã...? Fomos, não sem antes comprar uma galinha assada e farofa, garrafa de pinga e alguns charutos.
   O bairro Maracanã era um deserto. Uma casinha ali, outra acolá... Nenhuma rua calçada, neca de iluminação pública, nenhuma benfeitoria. Enfim, chegamos. Casa simples, cerca-viva baixa isolando-a da rua, jardinzinho perfumado – damas da noite –, sala, dois quartos, cozinha. Banheiros, masculino e feminino, ficavam fora, no terreiro, círculo cimentado e coberto com palha, mureta em volta servindo de assento. Acenderam-se lampiões a querosene. Tomamos lugar nos dois pequenos sofás existentes na saleta e calados ficamos. Couto voltou da cozinha trazendo copos, serviu-nos da pinga, tomou uma e encheu outro copo até as bordas, que depositou aos pés da imagem de Exu disposta a um canto. Acendeu velas em torno desse copo. Disse que comeríamos a galinha assada depois da cerimônia, pediu licença e entrou num dos quartos.
   Voltaria transfigurado. Calça e túnica em cetim escarlate, capa ou manto da mesma tonalidade, na cabeça um capacete com chifres. E na mão um trinta e oito, cano longo. Ficamos boaquiabertos. Revólver? Ele não parou para explicar. Chegou até a porta que dava para o terreiro e disparou para o alto, um, dois, seis tiros. Esvaziou o tambor. Só aí disse: “É pra mudar o disco!” Sentou-se num banquinho e pediu que acendêssemos os charutos em homenagem ao santo. Conversamos, não me lembro sobre o quê, não nos foi servida mais pinga e ele nos conduziu ao terreiro. Reinaldinho, o último da fila, abaixou-se ao passar por Exu e tomou um gole da pinga deste.
   No terreiro, Couto pediu que nos sentássemos em semicírculo – havia uns seis banquinhos ali –, afastou-se alguns passos, olhou-nos um a um nos olhos e ajoelhou-se. Tirou a capa e estendeu-a no chão. Em seguida, colocou cerca de seis a oito garrafas deitadas sobre a capa e, com outra garrafa mais resistente, partiu as demais em cacos. Observávamos.  Tirou o capacete, ficou de quatro, ajeitou a fronte sobre os cacaréus e, inacreditável, começou a triturá-los... Quando acabou, uns cinco minutos depois, pediu que verificássemos sua cabeça. Nenhum filete de sangue!

   De volta à sala, Reinaldinho deu o alarme: “Couto, o copo do santo baixou!” Ele somente sorriu e disse: “Pai tomou um gole.” Veio a galinha com farofa, tomamos o resto da pinga, baforamos mais um charuto e nos despedimos . No caminho de volta o assunto não poderia ser outro: “Será que vimos o que vimos?” Grego sentenciou: “A pinga, pouca, não deu para nos embriagar; o charuto não era de maconha, portanto, esse Couto tem mesmo parte com o demo ou é ilusionista ou  mágico!

14.1.14

DEFLORADAS NA SERRA... HCTF



Decorridas quatro décadas, creio já poder revelar, se não o maior, certamente o mais criativo golpe publicitário da história de Montes Claros, cidade pródiga nesse tipo de expediente. Lembram-se do caso Orieth Bay? Pois bem.
   Era comum à época, entidades filantrópicas, times de futebol, turmas de formandos ou conjuntos musicais solicitarem aos donos de cinema a cessão de algum filme, cuja renda da bilheteria , dividida por dois, contemplava gregos e troianos. Os Heremitas (Reinaldo Oliveira, Geraldo Madureira, Herbert Caldeira e Luiz Guedes), banda de rock dos anos 1960, via-se em dificuldades para renovar seu equipamento e apelou ao dr. Mário Ribeiro, sócio-proprietário dos Cinemas Norte de Minas. Marão os recebeu com a gentileza de sempre, ligou para o seu gerente, Otávio Silveira, e recomendou os rapazes.
   A fita disponibilizada por seu Otávio era Floradas na Serra, em preto e branco, última das dezoito películas produzidas pela Vera Cruz. Produção caríssima e elenco de primeira (Cacilda Becker – em sua única aparição no cinema –, Jardel Filho, Ilka Soares, John Herbert...). Havia sido sucesso de crítica e bilheteria, mas isso em 1954... Quinze anos após, os garotos da banda viram-se com um abacaxi nas mãos – o que fazer para promover aquele filme? 
   Meio desanimados, antevendo bilheteria ridícula, começaram a fazer cartazes em cartolina para a divulgação do filme em colégios, lanchonetes, bares, lojas etc. No meio do trabalho um deles, sem dúvida o Reinaldinho, propôs aos demais membros do grupo: “ E se mudássemos o nome do filme?”
   Foi o que fizeram. Defloradas na 
Serra, sem sombra de dúvida levaria multidões ao cinema e foi o que aconteceu, cine Coronel Ribeiro lotado na sessão da tarde de uma quarta ou quinta-feira. Começa o filme. A moça rica (Cacilda Becker) que vai passear em Campos do Jordão descobre-se tuberculosa... Foge da clínica local e encontra um rapaz, escritor pobre e desconhecido, na estação de trem... Ele chegara para se tratar... Ela passa mal... Volta à clínica acompanhada do rapaz...
   Meia hora de filme... Monotonia... Uma hora de filme... Nada... De repente um gaiato gritou da platéia: “Cadê a deflorada?!” Nada... Aí já não tinha como segurar os mais exaltados. “ Ô, Jacó (apelido do funcionário que projetava os filmes), quero o meu de volta!” Aqui não tem otário não, meu chapa!” Tumulto, revolta, pouco faltou para que depredassem a sala de espetáculos quando o filme terminou. Mas, enfim, como bons montesclarenses, foram todos embora e em paz... 

NOTA: Reinaldo Oliveira, Geraldo Madureira e dessa vez, também Hélio Guedes, o Patão, protagonizaram outro feito de igual valia naquela época: Anunciaram em carros de som pela cidade a presença do então famoso cantor Jerry Adriani, ao vivo, no cine São Luiz. Sim, sim, Jerry Adriani lá esteve, mas não saiu da tela...
 

OLD TIMES NO AC


   
                                        Hélcio Lucas, Márcia Sá, Rita Zumba, Ricardo Milo,
                                        Beto Guedes, Juarez Drumond, Eliane Renault e, de   
                                        pé, nosso saudoso Roberto Tourinho, meu irmão Didu.

6.1.14

MEU AMIGO RAYU CHRISTOFF

Faleceu meu amigo Rayu. Ucho e eu o visitamos há dois meses. Tomamos algumas, papeamos, ressuscitamos causos e casos, verídicos ou não. Importa não, curtimos uma bela noite. Ficamos de lá voltar... O que mais posso dizer, além dessa última lembrança e de tantas outras por nós vividas? As belas crônicas que reproduzo abaixo sintetizam tudo o que eu teria a falar sobre Rayu.
Obrigado aos amigos Paulinho Narciso e Ucho Ribeiro por me pouparem o sofrimento adicional. 


Paulo Narciso
Publicada no www.montesclaros.com
Sáb 4/1/2014 
No entardecer de 6 de dezembro, no Tempo da Epifania, depois de muitas 
vezes, consegui que Raio atendesse o interfone da casa/museu do seu 
pai, onde pincéis produziram quadros e horas inolvidáveis, como Pavão 
gosta de repetir. 
   Atendeu, identificou prontamente a voz que o buscava, saiu à porta e, 
milagre, aceitou alegremente deixar os seus domínios últimos, e 
conversar. (Igor, seu irmão, ontem perguntou: "com que trator conseguiu 
arrastá-lo?") O fato é que Raio veio, contente, conversar.
   Ali perto, de uma varanda para a cidade, por 3 horas conversamos, 
ou mais. Apenas os dois. Nossas vidas de 60 anos foram 
recuperadas, e revisitadas, em cada quadra. Pareceu-me muito com o 
gigante que foi seu pai. Lúcido, raciocínio alto, controle da situação, 
despojamento, despreendimento. Um sábio que se ancora na solidão, 
para melhor falar com Deus, que a todos ouve no grande deserto. 
Inesquecíveis 3 horas, de vasto sobrevôo. 
   Apenas uma vez Raio desceu às vicissitudes humanas, quando se 
sentiu, e confessou "rodeado de buracos". A imersão, rápida, às 
regiões de dor sempre foram passageiras no fantástico mundo que 
sempre soube construir, um seguido sempre de muitos outros, infindáveis. 
Tomei a iniciativa, deliberada, de afastá-lo dos "buracos", e provoquei 
para que voltasse aos planos costumeiros de sua lucidez, que a 
muitos pode parecer caótica, e nunca, nunca foi. A solidão dos altos 
vôos, a espaços rarefeitos, é um preço a ser pago, e ir lá nada tem de 
egoístico, de soberba ou superioridade.
    Raio exibiu maioridade mental - leve, verdadeiro, autêntico, e nosso 
diálogo, com a promessa de muitos outros, foi longínquo e privilegiado, 
até para a noite que é de Epifania. O homem tocando as suas cumeeiras,
equilibrado e justo, no esplendor do pouco querer.
   Lembrei-me de Taine, citado por Lima Barreto: "Tudo amar 
para tudo compreender, tudo compreender para tudo perdoar..." 
Percorremos S. João da Cruz e Yogananda, e ele fluiu soberanamente, 
leitor voraz que sempre foi. 
  Fui entregá-lo de volta á sua casa, a pé, em função de detalhe 
que me impressionou profundamente. Raio, quando aceitou vir comigo, 
naquele entardecer (repetirei sempre: começo de Epifania), a cada 
passo que se afastava da Casa do Pai, voltava-se com o olhar para ela. 
Fez isto várias vezes, no espaço de 2 quarteirões. 
Talvez se perguntando: se saberia voltar, se era capaz de voltar. 
Temia não voltar, esquecer o caminho, perder-se?

   Voltou.
   Voltará muitas vezes. Numa Noite, Feliz.

(Estas lembranças dito com um só dedo, que é o que este 
mini-computador aceita, em trânsito, a caminho, para dizer "bravo" ao 
que depôs seu primo Ucholino, sempre muito bem. Raio vive!)


Tino Gomes, Paulinho Jr e Paulo Narciso















UM RAYU EM MINHA VIDA
Ucho Ribeiro
Publicada no www.montesclaros.com
Sáb 4/1/2014
Quando menino, Christoff era espevitado, expresso, curioso. Tinha todos os brinquedos, alguns inimagináveis, irreais até em nosso sonhos. Sua flash presença enchia por completo a família, o colégio, o ambiente. Carisma em pessoa. A meninada torpe estancava com tantas e mirabolantes ideias. Miragens para nosotros, terra firme para ele. Descobertas antevistas.
   Invejava sua coragem adulta, sua certeza indubitável, lógica. O que era dois mais dois para ele, para o resto da turma boaquiaberta, mediana, era um devaneio. Dono do mundo, sem empáfia ou prosa. Simplesmente veio a passeio para desfrutá-lo, sem culpas e freios, até o osso.
   Tinha hobbies só seus e gosto refinado para arte, música e velocidade. Pisava fundo em seus veículos envenenados e remexidos. Sua alegria era turbinada por motores e carenagens transformados pela sua ousada autoria. Passava horas a elucubrar designs, a acelerar suas máquinas, a desenhar e rascunhar com sua farta imaginação.
   Certos dias, afoito, batia a vida no liquidificador e bebia num gole só, noutros saboreava a noite gota a gota, gole a gole. Bastava ter uma companhia amiga, uma comunhão de alma ou uma comemoração que o amanhecer era certo. O usual era cozinhar no próprio caldo. Borbulhava-se.
Adorava ser o híbrido Rayu. Dadivoso. Fleumático, sem ser narciso. Gostava de ficar só, a tramar, divertir, projetar, viajar, dar asas à sua privilegiada cachola. Se satisfazia. Feliz, amiúde.
   Era sempre Rayu. Único, inteiro, pleno e iluminado. Generoso, quase um pródigo para os mais próximos. Nunca despedi do primo sem ser presenteado com um mimo, um quadro, um incentivo, um toque, uma luz. Jamais borocochou numa conversa, debreou ou jogou a toalha numa aventura. Despejava ânimos ou dava pitos quando vacilávamos. Cagava e andava para boatos, disse-me-disses, fofocas. Ignorava a mediocridade, evitava os baba-ovos, a turbe ignara. 
 Vivia a vida sem horários, regulamentos, agendas e não dava satisfação a seu ninguém. Degustava e flainava como um dandi. Livre, leve e louco. Nas madrugadas, na mais pura intimidade, revelava-se apaixonado pelos filhos e o mais orgulhoso pai. Nikita e Ian eram suas pedras preciosas. Amava-os no silêncio e discrição.
   Rayu Ribeiro Christoff, a inteligência e delicadeza mais bruta e amorosa que conheci, se foi. Escafedeu-se. Está a plainar sobre nós. Soberano, com toda a sua fleuma. Sinto-me desamparado, sem poita, uma lágrima só, num oceano enxuto e árido.

   Rayu, meu primo, meu amigo, meu irmão, minha luz!
   Vá em Paz!
   Te beijo de longe, de onde sempre quis te trazer e não consegui, mas que será a partir de agora nosso lugar de encontro.
Ucho.
Rio Preto. 03.01.2014

Ucho Ribeiro, Genival Tourinho e Pancho Silveira
















Fotos de NAZARE - Zaé Rodrigues




































































































































































































































































































































BH BEATLE WEEK 2013

O sonho ainda não acabou...
Dedicada a Gael Milo

Nos idos dos anos 1960, montávamos em Montes Claros a primeira banda de rock – na época
chamava-se conjunto – da *cidade: Os Brucutus. Componentes: Ricardo Milo, Hélio Guedes, João Batista Macedo e eu. Algum tempo depois, João Batista (Lelas) deixa a banda por questões logísticas – passamos a morar em Belo Horizonte, ele aqui continuou – e entra o Beto Guedes. Tocávamos em shows, bailes, horas dançantes, rádios, TVs, o que viesse. Em horas dançantes e bailes tocávamos de tudo, sendo que canções dos Beatles compunham 80% do repertório. Em 1966, já em BH, levamos para casa o troféu de segunda banda de rock de Minas Gerais, no celebrado Concurso Nacional da Jovem Guarda. Infelizmente, apenas o primeiro colocado, The Jungle Cats, de BH, participaria da finalíssima em São Paulo.
Montes Claros possuía cerca de 36 bandas de rock nos anos de 1960. Febre nacional. No entanto, a grande maioria mal formada e de curta duração, diga-se. Sobressaíam Os Heremitas - Luiz Guedes, Herbert Caldeira, Reinaldo Oliveira e Geraldo Madureira, Grego - focados em The Herman’s Hermits, banda inglesa originária de Manchester, cujo lead vocal, Peter Noone, levava adolescentes ao desmaio. Venderam 70 milhões de discos, capitaneados pelas belíssimas e inesquecíveis canções Listen people, No milk today e My sentimental friend, todas hoje acessíveis no youtube.com; Os Tills, de repertório variado, sem foco específico, tocando um pouco de tudo e muito bem; Os Flintstones, com Titão, Abílio Morais, Ronaldo e Ronildo Almeida, especialistas em Rolling Stones; Eusébio e Irmãos, de repertório variado; Os Bárbaros, banda de Miguel e Fred Mendes, Ricardo Moreira, Yuri Popoff e Aristônio Canela; We The Whats, rock variado, com Aliomar Assis na bateria, Ricardo Mesquita, crooner, impagável interpretando I started a joke, dos Bee Gees, e outros; Os Dinossauros, com Juquitão, Saint-Clair Moraise outros; The Wood Face Girls, rock variado, com as garotas Lucinha Teixeira, Celeste Priquitim, Hilda Nascimento e Nair Maurício, e, finalmente, Os Brucutus, cover dos Beatles, que também divulgaram o trabalho de algumas bandas inglesas ainda desconhecidas do grande público daqui, como The Dave Clark Five, The Hollies, Gerry and the Pacemakers, para ficar nestas, e americanas, The Byrds, Chicago Transity Authorithy...
Mas nossa paixão eram os Fab Four, realmente quatro fabulosos garotos de Liverpool, Inglaterra, que viraram o planeta de pernas para o ar. Foram o divisor de águas e, depois deles, The Beatles, nada mais seria como antes. Mas o tempo passa, e rápido – voa! Os Beatles acabaram antes dos Brucutus, aqueles em 1969, estes em 1971. O sonho acabara? Não, Lennon estava equivocado. John, Paul, George e Ringo partiram para carreiras solo bem sucedidas – vejam o Paul mandando ver aos 71 anos! – e nós, dos Brucutus, para as universidades e carreiras artísticas. Beto Guedes, o real talento do grupo, enfronhou-se com Lô Borges, Tavinho Moura, Toninho Horta e Milton Nascimento, dentre outros ícones, gravaram o antológico Clube da Esquina e Beto deslanchou sua carreira solo, produzindo álbuns de rara sensibilidade. Ótimo e disciplinado multi-instrumentista, compositor de mão cheia e grande intérprete.
Bem, após o fim do conjunto – não falávamos banda – continuamos a tocar esporadicamente, seja nos especiais de fim de ano, sempre no Automóvel Clube, onde começamos, seja nos inesquecíveis natais de Elza e Juca Milo ou em bares de Moc City. Qualquer hora dessas ameaçamos voltar, kkk, porém, infelizmente, sem a presença do Pato Guedes, que precocemente nos deixou.
Toda essa sintética introdução/explicação foi necessária para chegarmos ao ponto central desta crônica: o culto aos Beatles. Lançáramos a semente e desejávamos ve-la germinar, se espraiar no solo fecundo da musicalidade de nossos garotos. E não nos decepcionamos, aqui e acolá esteve, está e sempre estará brotando um novo beatlemaníaco: Aggeu Marques, montesclarense, fundador da consagrada banda cover dos Beatles em BH, Hocus Pocus, participante de várias Beatle Weeks em Liverpool; Samuel Lessa, Rodrigo, Diego e Junior, com sua ótima banda Mr. Postman, de Moc; Raphael Milo, Beu Vianna, Marcelo Milo, Maurício Teixeira e Hernane, com a sua Jardim Elétrico; Zureba, Lobão, Danilo Narciso, Henrique Tourinho, Ian e Xexéu Guedes... E, pelo visto, a coisa vai para a terceira geração, pois tivemos a grande notícia – nenhuma surpresa – de que Gael, filho do Rapha Milo, garotinho de apenas 4 anos, já anda rondando a bateria. Seu rítmo levantou as orelhas do pai, professor do nosso conservatório de música, violonista, flautista, compositor e cantor. Rapha faz tudo muito bem.

BH BEATLE WEEK 2013
De sexta a domingo, 13 a 15 de dezembro deste ano, realizou-se em BH a sexta ou sétima edição da Beatle Week. 25 atrações, entre bandas e artistas apresentaram-se em teatros e casas noturnas da capital: Cine Theatro Brasil Vallour (totalmente reformado), Circus Rock Bar, Lord Pub, Jack Rock Bar, Status Cultur e Arte, Rutger Moto Music Bar e palco ao ar livre na Savassi (foto acima). Bandas e artistas não poderiam ser melhores: Anthology – BH –, Beatle Juice – Argentina, levou o primeiro lugar na Beatle Week de lá –, Beatles Machine – Paraná –, Bgirls – quarteto feminino de Americana, SP –, Bluebeetles – Rio, toca frequentemente na Beatle Week de Liverpool –, Direct from The Cavern – Liverpool –, Hey Baldock – BH –, Hocus Pocus – BH –, Letícia Barbarella – carioca, faz releituras dos Beatles com arranjos próprios –, Magical Mystery Band - Montes Claros, MG –, Nelson e os Besouros – RS –, Nowhereband – Chile –, Orquestra Ouro Preto – arranjos orquestrais para clássicos dos Beatles, já se apresentou em Liverpool –, Pocket Beatles – Integrantes do grupo vocal Voz & Cia, apresentaram-se à capella, somente violões –, Revolver – BH, canções da carreira solo de Paul McCartney –, Ringer Star – EUA, Ringer é baterista e sósia do Ringo –, 3 of Us – BH, trio –, Tributo a George Harrison – Gary Gibson, Voz & Cia e Orquestras, o conjunto que fez tributo ao guitarrista dos Beatles foi formado por integrantes dos grupos Yesterdays, Cálix e Hocus Pocus. Tocou ao lado do Voz & Cia e de orquestra formada por instrumentistas da Sinfônica e Filarmônica mineiras, além da Orquestra Ouro Preto. Acompanha também o guitarrista inglês Gary Gibson, considerado o melhor cover de Lennon do mundo, além da incrível semelhança física –, Túnel do Tempo – Rio, a banda carioca foi a primeira brasileira a tocar em Abbey Road, e Vix Beatles – ES –, Magical Mystery Band, que representou Moc na Beatle Week de BH, foi a única do interior do estado a fazê-lo. Portanto, palmas para a meninada, Igor Zureba, lead vocal, Raphael Milo, guitarra base, vocais, Junior Kashimir, guitarra solo, George Duarte, baixo, e Dhiogo Revert, bateria e vocais.

*Causou-me espécie a matéria – Liverpool Aqui – assinada por Mariana Peixoto no Estado de Minas de 13.12.2013, dando a Hocus Pocus, de BH, como a mais antiga banda cover dos Beatles de Minas Gerais. Em fevereiro completará 30 anos. Se não me falha a memória, Os Brucutus, de Montes Claros, MG, é um pouco mais antiga... Apresentaram-se, devidamente paramentados, pela primeira vez, no Automóvel Clube desta cidade, em outubro de 1965. Portanto, lá se vão 48 anos! Fotos e crônicas sociais da época estão aí para provar. Certamente, a autora da matéria desconhece o fato, embora Os Brucutus tenham tocado durante três anos consecutivos em BH, seja no auditório da Rádio Mineira, na TV Belo Horizonte, à época afiliada a Globo, e em clubes como Pampulha Iate Clube, Hípica, Minas Tênis e Viajantes, onde foram contratados por um ano para lá levarem o Juventude em Brasa, programa dançante criado no Automóvel Clube de Montes Claros. Fica o registro.