Faleceu meu amigo Rayu. Ucho e eu o visitamos há dois meses. Tomamos algumas, papeamos, ressuscitamos causos e casos, verídicos ou não. Importa não, curtimos uma bela noite. Ficamos de lá voltar... O que mais posso dizer, além dessa última lembrança e de tantas outras por nós vividas? As belas crônicas que reproduzo abaixo sintetizam tudo o que eu teria a falar sobre Rayu.
Obrigado aos amigos Paulinho Narciso e Ucho Ribeiro por me pouparem o sofrimento adicional.
Tino Gomes, Paulinho Jr e Paulo Narciso
Paulo Narciso
Publicada
no www.montesclaros.com
Sáb 4/1/2014
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No entardecer de 6 de dezembro, no Tempo da Epifania, depois de muitas
vezes, consegui que Raio atendesse o interfone da casa/museu do seu pai, onde pincéis produziram quadros e horas inolvidáveis, como Pavão gosta de repetir.
Atendeu, identificou prontamente a voz que o buscava,
saiu à porta e,
milagre, aceitou alegremente deixar os seus domínios últimos, e conversar. (Igor, seu irmão, ontem perguntou: "com que trator conseguiu arrastá-lo?") O fato é que Raio veio, contente, conversar.
Ali perto, de uma varanda para a cidade, por 3 horas
conversamos,
ou mais. Apenas os dois. Nossas vidas de 60 anos foram recuperadas, e revisitadas, em cada quadra. Pareceu-me muito com o gigante que foi seu pai. Lúcido, raciocínio alto, controle da situação, despojamento, despreendimento. Um sábio que se ancora na solidão, para melhor falar com Deus, que a todos ouve no grande deserto. Inesquecíveis 3 horas, de vasto sobrevôo.
Apenas uma vez Raio desceu às vicissitudes humanas,
quando se
sentiu, e confessou "rodeado de buracos". A imersão, rápida, às regiões de dor sempre foram passageiras no fantástico mundo que sempre soube construir, um seguido sempre de muitos outros, infindáveis.
Tomei a iniciativa, deliberada, de afastá-lo dos "buracos",
e provoquei
para que voltasse aos planos costumeiros de sua lucidez, que a muitos pode parecer caótica, e nunca, nunca foi. A solidão dos altos vôos, a espaços rarefeitos, é um preço a ser pago, e ir lá nada tem de egoístico, de soberba ou superioridade.
Raio exibiu maioridade mental - leve, verdadeiro,
autêntico, e nosso
diálogo, com a promessa de muitos outros, foi longínquo e privilegiado, até para a noite que é de Epifania. O homem tocando as suas cumeeiras, equilibrado e justo, no esplendor do pouco querer. Lembrei-me de Taine, citado por Lima Barreto: "Tudo amar para tudo compreender, tudo compreender para tudo perdoar..." Percorremos S. João da Cruz e Yogananda, e ele fluiu soberanamente, leitor voraz que sempre foi.
Fui entregá-lo de volta á sua casa, a pé, em função de detalhe
que me impressionou profundamente. Raio, quando aceitou vir comigo, naquele entardecer (repetirei sempre: começo de Epifania), a cada passo que se afastava da Casa do Pai, voltava-se com o olhar para ela.
Fez isto várias vezes, no espaço de 2 quarteirões.
Talvez se perguntando: se saberia voltar, se era capaz de
voltar.
Temia não voltar, esquecer o caminho, perder-se?
Voltou.
Voltará muitas vezes. Numa Noite, Feliz.
(Estas lembranças dito com um só dedo, que é o que este
mini-computador aceita, em trânsito, a caminho, para dizer "bravo" ao que depôs seu primo Ucholino, sempre muito bem. Raio vive!) |
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UM RAYU EM MINHA VIDA
Ucho
Ribeiro
Publicada
no www.montesclaros.com
Sáb
4/1/2014
Quando
menino, Christoff era espevitado, expresso, curioso. Tinha todos os brinquedos,
alguns inimagináveis, irreais até em nosso sonhos. Sua flash presença enchia
por completo a família, o colégio, o ambiente. Carisma em pessoa. A meninada
torpe estancava com tantas e mirabolantes ideias. Miragens para nosotros, terra
firme para ele. Descobertas antevistas.
Invejava sua coragem adulta, sua certeza
indubitável, lógica. O que era dois mais dois para ele, para o resto da turma
boaquiaberta, mediana, era um devaneio. Dono do mundo, sem empáfia ou prosa.
Simplesmente veio a passeio para desfrutá-lo, sem culpas e freios, até o osso.
Tinha hobbies só seus e gosto refinado para arte, música e
velocidade. Pisava fundo em seus veículos envenenados e remexidos. Sua alegria
era turbinada por motores e carenagens transformados pela sua ousada autoria.
Passava horas a elucubrar designs, a acelerar suas máquinas, a desenhar e
rascunhar com sua farta imaginação.
Certos
dias, afoito, batia a vida no liquidificador e bebia num gole só, noutros
saboreava a noite gota a gota, gole a gole. Bastava ter uma companhia amiga,
uma comunhão de alma ou uma comemoração que o amanhecer era certo. O usual era
cozinhar no próprio caldo. Borbulhava-se.
Adorava ser o híbrido Rayu. Dadivoso.
Fleumático, sem ser narciso. Gostava de ficar só, a tramar, divertir, projetar,
viajar, dar asas à sua privilegiada cachola. Se satisfazia. Feliz, amiúde.
Era sempre Rayu. Único,
inteiro, pleno e iluminado. Generoso, quase um pródigo para os mais
próximos. Nunca despedi do primo sem ser presenteado com um mimo, um quadro, um
incentivo, um toque, uma luz. Jamais borocochou numa conversa, debreou ou
jogou a toalha numa aventura. Despejava ânimos ou dava pitos quando
vacilávamos. Cagava e andava para boatos, disse-me-disses, fofocas.
Ignorava a mediocridade, evitava os baba-ovos, a turbe ignara.
Vivia a vida sem horários,
regulamentos, agendas e não dava satisfação a seu ninguém. Degustava e
flainava como um dandi. Livre, leve e louco. Nas madrugadas, na mais pura
intimidade, revelava-se apaixonado pelos filhos e o mais orgulhoso pai. Nikita
e Ian eram suas pedras preciosas. Amava-os no silêncio e discrição.
Rayu Ribeiro Christoff, a inteligência e delicadeza mais bruta e amorosa
que conheci, se foi. Escafedeu-se. Está a plainar sobre nós. Soberano, com toda
a sua fleuma. Sinto-me desamparado, sem poita, uma lágrima só, num oceano
enxuto e árido.
Rayu, meu primo, meu amigo, meu irmão,
minha luz!
Vá em Paz!
Te beijo de longe, de onde
sempre quis te trazer e não consegui, mas que será a partir de agora nosso
lugar de encontro.
Ucho.
Rio Preto. 03.01.2014
Ucho Ribeiro, Genival Tourinho e Pancho Silveira


