6.1.14

MEU AMIGO RAYU CHRISTOFF

Faleceu meu amigo Rayu. Ucho e eu o visitamos há dois meses. Tomamos algumas, papeamos, ressuscitamos causos e casos, verídicos ou não. Importa não, curtimos uma bela noite. Ficamos de lá voltar... O que mais posso dizer, além dessa última lembrança e de tantas outras por nós vividas? As belas crônicas que reproduzo abaixo sintetizam tudo o que eu teria a falar sobre Rayu.
Obrigado aos amigos Paulinho Narciso e Ucho Ribeiro por me pouparem o sofrimento adicional. 


Paulo Narciso
Publicada no www.montesclaros.com
Sáb 4/1/2014 
No entardecer de 6 de dezembro, no Tempo da Epifania, depois de muitas 
vezes, consegui que Raio atendesse o interfone da casa/museu do seu 
pai, onde pincéis produziram quadros e horas inolvidáveis, como Pavão 
gosta de repetir. 
   Atendeu, identificou prontamente a voz que o buscava, saiu à porta e, 
milagre, aceitou alegremente deixar os seus domínios últimos, e 
conversar. (Igor, seu irmão, ontem perguntou: "com que trator conseguiu 
arrastá-lo?") O fato é que Raio veio, contente, conversar.
   Ali perto, de uma varanda para a cidade, por 3 horas conversamos, 
ou mais. Apenas os dois. Nossas vidas de 60 anos foram 
recuperadas, e revisitadas, em cada quadra. Pareceu-me muito com o 
gigante que foi seu pai. Lúcido, raciocínio alto, controle da situação, 
despojamento, despreendimento. Um sábio que se ancora na solidão, 
para melhor falar com Deus, que a todos ouve no grande deserto. 
Inesquecíveis 3 horas, de vasto sobrevôo. 
   Apenas uma vez Raio desceu às vicissitudes humanas, quando se 
sentiu, e confessou "rodeado de buracos". A imersão, rápida, às 
regiões de dor sempre foram passageiras no fantástico mundo que 
sempre soube construir, um seguido sempre de muitos outros, infindáveis. 
Tomei a iniciativa, deliberada, de afastá-lo dos "buracos", e provoquei 
para que voltasse aos planos costumeiros de sua lucidez, que a 
muitos pode parecer caótica, e nunca, nunca foi. A solidão dos altos 
vôos, a espaços rarefeitos, é um preço a ser pago, e ir lá nada tem de 
egoístico, de soberba ou superioridade.
    Raio exibiu maioridade mental - leve, verdadeiro, autêntico, e nosso 
diálogo, com a promessa de muitos outros, foi longínquo e privilegiado, 
até para a noite que é de Epifania. O homem tocando as suas cumeeiras,
equilibrado e justo, no esplendor do pouco querer.
   Lembrei-me de Taine, citado por Lima Barreto: "Tudo amar 
para tudo compreender, tudo compreender para tudo perdoar..." 
Percorremos S. João da Cruz e Yogananda, e ele fluiu soberanamente, 
leitor voraz que sempre foi. 
  Fui entregá-lo de volta á sua casa, a pé, em função de detalhe 
que me impressionou profundamente. Raio, quando aceitou vir comigo, 
naquele entardecer (repetirei sempre: começo de Epifania), a cada 
passo que se afastava da Casa do Pai, voltava-se com o olhar para ela. 
Fez isto várias vezes, no espaço de 2 quarteirões. 
Talvez se perguntando: se saberia voltar, se era capaz de voltar. 
Temia não voltar, esquecer o caminho, perder-se?

   Voltou.
   Voltará muitas vezes. Numa Noite, Feliz.

(Estas lembranças dito com um só dedo, que é o que este 
mini-computador aceita, em trânsito, a caminho, para dizer "bravo" ao 
que depôs seu primo Ucholino, sempre muito bem. Raio vive!)


Tino Gomes, Paulinho Jr e Paulo Narciso















UM RAYU EM MINHA VIDA
Ucho Ribeiro
Publicada no www.montesclaros.com
Sáb 4/1/2014
Quando menino, Christoff era espevitado, expresso, curioso. Tinha todos os brinquedos, alguns inimagináveis, irreais até em nosso sonhos. Sua flash presença enchia por completo a família, o colégio, o ambiente. Carisma em pessoa. A meninada torpe estancava com tantas e mirabolantes ideias. Miragens para nosotros, terra firme para ele. Descobertas antevistas.
   Invejava sua coragem adulta, sua certeza indubitável, lógica. O que era dois mais dois para ele, para o resto da turma boaquiaberta, mediana, era um devaneio. Dono do mundo, sem empáfia ou prosa. Simplesmente veio a passeio para desfrutá-lo, sem culpas e freios, até o osso.
   Tinha hobbies só seus e gosto refinado para arte, música e velocidade. Pisava fundo em seus veículos envenenados e remexidos. Sua alegria era turbinada por motores e carenagens transformados pela sua ousada autoria. Passava horas a elucubrar designs, a acelerar suas máquinas, a desenhar e rascunhar com sua farta imaginação.
   Certos dias, afoito, batia a vida no liquidificador e bebia num gole só, noutros saboreava a noite gota a gota, gole a gole. Bastava ter uma companhia amiga, uma comunhão de alma ou uma comemoração que o amanhecer era certo. O usual era cozinhar no próprio caldo. Borbulhava-se.
Adorava ser o híbrido Rayu. Dadivoso. Fleumático, sem ser narciso. Gostava de ficar só, a tramar, divertir, projetar, viajar, dar asas à sua privilegiada cachola. Se satisfazia. Feliz, amiúde.
   Era sempre Rayu. Único, inteiro, pleno e iluminado. Generoso, quase um pródigo para os mais próximos. Nunca despedi do primo sem ser presenteado com um mimo, um quadro, um incentivo, um toque, uma luz. Jamais borocochou numa conversa, debreou ou jogou a toalha numa aventura. Despejava ânimos ou dava pitos quando vacilávamos. Cagava e andava para boatos, disse-me-disses, fofocas. Ignorava a mediocridade, evitava os baba-ovos, a turbe ignara. 
 Vivia a vida sem horários, regulamentos, agendas e não dava satisfação a seu ninguém. Degustava e flainava como um dandi. Livre, leve e louco. Nas madrugadas, na mais pura intimidade, revelava-se apaixonado pelos filhos e o mais orgulhoso pai. Nikita e Ian eram suas pedras preciosas. Amava-os no silêncio e discrição.
   Rayu Ribeiro Christoff, a inteligência e delicadeza mais bruta e amorosa que conheci, se foi. Escafedeu-se. Está a plainar sobre nós. Soberano, com toda a sua fleuma. Sinto-me desamparado, sem poita, uma lágrima só, num oceano enxuto e árido.

   Rayu, meu primo, meu amigo, meu irmão, minha luz!
   Vá em Paz!
   Te beijo de longe, de onde sempre quis te trazer e não consegui, mas que será a partir de agora nosso lugar de encontro.
Ucho.
Rio Preto. 03.01.2014

Ucho Ribeiro, Genival Tourinho e Pancho Silveira