Dona Carlota, Eu e a Eternidade...
- Vovó vem morar conosco! anunciou uma Lourdes
eufórica. Dona Carlota era sua avó materna, minha bisavó e tataravó de minha
filha Marina, que não a conheceu. O telegrama, ou western, como algumas pessoas nominavam aquele papel com boas ou
más notícias, chegou por volta do almoço. Eu conhecera vovó Carlota em
Salvador, onde passávamos os verões, mas aos seis anos de idade sua imagem
fugia-me à mente, esfumava-se.
Em casa havia telefone, linha 48, uma das cem então disponíveis à diminuta população da urbe, mas não realizava chamadas interurbanas. Para esse tipo de comunicação o telégrafo imperava, absoluto. Montes Claros foi a terceira cidade do país a contar com serviço telefônico automatizado para operações locais. Antes dessa novidade eu precisava pedir à telefonista para me conectar à residência do dr. Deusdará. Certo dia ela me disse, "Você quer falar com o Sérgio? Ele não está em casa, passou por aqui agorinha..." Sérgio era meu melhor amigo e irmão de leite, havíamos nascido na mesma semana e mamãe o amamentara por um mês. A razão dos telefonemas? "Que filme vamos ver hoje?" Quando não tínhamos natação com o mestre Sabu ou inglês com o Sr. Corrêa, logo após cumprido o dever de casa vinha a merenda e a matinê das 4. Aos sábados, futebol ou piquenique e aos domingos, após ouvir missa na Catedral, era sagrada a ida ao cinema para a sessão das 10 da manhã, com direito a seriados do Zorro,Tarzan, Jim das Selvas...
Eu compartilhei a alegria da família com a iminente chegada de vovó Carlota, o inverso da tristeza que nos tomara um ano antes, quando a notícia via telégrafo fora a morte de minha avó materna, Edith, única filha dela e de meu bisavô Epiphânio. Partira aos 56 anos - infarto fulminante. Alguns dias depois do golpe, mamãe nos revelou que, pela cara do carteiro, intuíra que o telegrama seria funesto. Telefonistas e carteiros sabiam da vida de todos naqueles tempos.
Mas eis que aos 84 anos chega a Montes Claros vovó Carlota. Fomos em dois carros de praça recebê-la no campo de aviação, pois era assim que a maioria do povo chamava aeroporto. Passei muito tempo pronunciando areoporto, como sistematicamente o fazia nosso presidente Castelo Branco. Quando eu o ouvia, após o golpe de 1964, eu me revia. Eu adorava aqueles táxis enormes, Plymouth, Chrysler, Oldsmobile, Ford... Meu preferido era o Mercury branco com vidros ray-bans do Sr. Thomaz. Ele sintonizava o rádio, me deixava acionar o vidro elétrico e ligava o acendedor de cigarros para meu pai. Mas, nessa ida ao campo de aviação, quem nos transportou foram Mário e Maroto, dois dos choferes de praça que mais serviam meu pai, médico, nas corridas para atender a algum chamado. A ida ao antigo aeroporto de Montes Claros merecia uma filmagem documental: estrada de terra - lama ou poeira - atoleiros, facões, gado na pista, galinhas e pintos voando ao passar do automóvel... A companhia aérea que fazia o percurso Salvador-Ilhéus-Pedra Azul-Montes Claros-Pirapora-Belo Horizonte-São Paulo, ida e volta, era a Panair, que tinha como representante na cidade o Sr. Nathércio França. Depois vieram a Nacional, a Cruzeiro, e bem mais tarde a Varig, hoje também extinta. Todas elas utilizavam como equipamento de vôo o velho de guerra e seguro DC-3, até a chegada do turbo-hélice inglês da Varig, o Avro, com capacidade para mais passageiros.
Dona Carlota Reys de Athayde Cruz, Reys de Athayde em solteira, desembarcou de preto. Trazia luto fechado pela morte da filha. Baixa, gorda, branquíssima, não sorria. Os cabelos presos em coque de há muito estavam brancos e lindos olhos azuis cintilavam em sua face corada, denunciando a ascendência europeia, belga. Ainda usava luvas, rendadas, pretas, caídas de moda no dia a dia, mas permitidas pela sua avançada idade. Mamãe tinha aversão a luto e papai, como os senhores da época, usava apenas o fumo - faixa de crepe preta em torno do braço do paletó, da camisa ou da copa do chapéu. No caso dele, paletó, do chapéu já se livrara. E camisas de mangas curtas somente as usava em praia. Crianças ficavam desobrigadas desse esdrúxulo costume, o luto.
Vovó não veio de mala-e-cuia como esperávamos. Sua bagagem era reduzida e ficou conosco um mês ou pouco mais. Achou a cidade acanhada e deslumbrou-se com o tom de azul do céu, o mais belo que jamais vira. Algum tempo antes fora ao Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro e só falava nisso. Sobre o imenso aterro do Flamengo, executado e embelezado para acomodar as dezenas de milhares de fiéis presentes ao evento, dizia: " O que o homem toma ao mar, o mar volta a recuperar..." Exortava meus pais a conhecer o Rio, sua prima Arlanza lhes serviria de cicerone lá... E patati-patatá... Havia trazido presentes para todos; ganhei um caminhão dos bombeiros e uma bola.
Foi uma boa temporada, aquela, mas, assim como veio, vovó Carlota partiu, prometendo retornar para de vez ficar. Sua situação em Salvador tornara-se insustentável após a morte do marido e da filha, minha avó Edith - viviam juntas. Uma das netas e um neto, solteiros, residiam em Salvador, mas tinham suas vidas. No Rio, dois outros netos, também solteiros... Restou-lhe o caminho de Minas e duas opções: morar com o neto José, meu tio e padrinho de batismo, já casado e juiz de direito em Resplendor, ou vir morar com mamãe, a neta Lourdes, em Montes Claros. Escolheu mamãe.
Em casa havia telefone, linha 48, uma das cem então disponíveis à diminuta população da urbe, mas não realizava chamadas interurbanas. Para esse tipo de comunicação o telégrafo imperava, absoluto. Montes Claros foi a terceira cidade do país a contar com serviço telefônico automatizado para operações locais. Antes dessa novidade eu precisava pedir à telefonista para me conectar à residência do dr. Deusdará. Certo dia ela me disse, "Você quer falar com o Sérgio? Ele não está em casa, passou por aqui agorinha..." Sérgio era meu melhor amigo e irmão de leite, havíamos nascido na mesma semana e mamãe o amamentara por um mês. A razão dos telefonemas? "Que filme vamos ver hoje?" Quando não tínhamos natação com o mestre Sabu ou inglês com o Sr. Corrêa, logo após cumprido o dever de casa vinha a merenda e a matinê das 4. Aos sábados, futebol ou piquenique e aos domingos, após ouvir missa na Catedral, era sagrada a ida ao cinema para a sessão das 10 da manhã, com direito a seriados do Zorro,Tarzan, Jim das Selvas...
Eu compartilhei a alegria da família com a iminente chegada de vovó Carlota, o inverso da tristeza que nos tomara um ano antes, quando a notícia via telégrafo fora a morte de minha avó materna, Edith, única filha dela e de meu bisavô Epiphânio. Partira aos 56 anos - infarto fulminante. Alguns dias depois do golpe, mamãe nos revelou que, pela cara do carteiro, intuíra que o telegrama seria funesto. Telefonistas e carteiros sabiam da vida de todos naqueles tempos.
Mas eis que aos 84 anos chega a Montes Claros vovó Carlota. Fomos em dois carros de praça recebê-la no campo de aviação, pois era assim que a maioria do povo chamava aeroporto. Passei muito tempo pronunciando areoporto, como sistematicamente o fazia nosso presidente Castelo Branco. Quando eu o ouvia, após o golpe de 1964, eu me revia. Eu adorava aqueles táxis enormes, Plymouth, Chrysler, Oldsmobile, Ford... Meu preferido era o Mercury branco com vidros ray-bans do Sr. Thomaz. Ele sintonizava o rádio, me deixava acionar o vidro elétrico e ligava o acendedor de cigarros para meu pai. Mas, nessa ida ao campo de aviação, quem nos transportou foram Mário e Maroto, dois dos choferes de praça que mais serviam meu pai, médico, nas corridas para atender a algum chamado. A ida ao antigo aeroporto de Montes Claros merecia uma filmagem documental: estrada de terra - lama ou poeira - atoleiros, facões, gado na pista, galinhas e pintos voando ao passar do automóvel... A companhia aérea que fazia o percurso Salvador-Ilhéus-Pedra Azul-Montes Claros-Pirapora-Belo Horizonte-São Paulo, ida e volta, era a Panair, que tinha como representante na cidade o Sr. Nathércio França. Depois vieram a Nacional, a Cruzeiro, e bem mais tarde a Varig, hoje também extinta. Todas elas utilizavam como equipamento de vôo o velho de guerra e seguro DC-3, até a chegada do turbo-hélice inglês da Varig, o Avro, com capacidade para mais passageiros.
Dona Carlota Reys de Athayde Cruz, Reys de Athayde em solteira, desembarcou de preto. Trazia luto fechado pela morte da filha. Baixa, gorda, branquíssima, não sorria. Os cabelos presos em coque de há muito estavam brancos e lindos olhos azuis cintilavam em sua face corada, denunciando a ascendência europeia, belga. Ainda usava luvas, rendadas, pretas, caídas de moda no dia a dia, mas permitidas pela sua avançada idade. Mamãe tinha aversão a luto e papai, como os senhores da época, usava apenas o fumo - faixa de crepe preta em torno do braço do paletó, da camisa ou da copa do chapéu. No caso dele, paletó, do chapéu já se livrara. E camisas de mangas curtas somente as usava em praia. Crianças ficavam desobrigadas desse esdrúxulo costume, o luto.
Vovó não veio de mala-e-cuia como esperávamos. Sua bagagem era reduzida e ficou conosco um mês ou pouco mais. Achou a cidade acanhada e deslumbrou-se com o tom de azul do céu, o mais belo que jamais vira. Algum tempo antes fora ao Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro e só falava nisso. Sobre o imenso aterro do Flamengo, executado e embelezado para acomodar as dezenas de milhares de fiéis presentes ao evento, dizia: " O que o homem toma ao mar, o mar volta a recuperar..." Exortava meus pais a conhecer o Rio, sua prima Arlanza lhes serviria de cicerone lá... E patati-patatá... Havia trazido presentes para todos; ganhei um caminhão dos bombeiros e uma bola.
Foi uma boa temporada, aquela, mas, assim como veio, vovó Carlota partiu, prometendo retornar para de vez ficar. Sua situação em Salvador tornara-se insustentável após a morte do marido e da filha, minha avó Edith - viviam juntas. Uma das netas e um neto, solteiros, residiam em Salvador, mas tinham suas vidas. No Rio, dois outros netos, também solteiros... Restou-lhe o caminho de Minas e duas opções: morar com o neto José, meu tio e padrinho de batismo, já casado e juiz de direito em Resplendor, ou vir morar com mamãe, a neta Lourdes, em Montes Claros. Escolheu mamãe.
Dona Carlota não perdeu tempo. Pragmática, tão
logo nos deixou resolveu em Salvador o seu futuro. Pelo que sei, via transmissão
familiar, ela realizou os bens que lá possuía, repartiu o resultado com os
netos até então solteiros, meus tios Carlito, Detinha, Therezinha e Rubinho -
mamãe e José abriram mão de suas partes - e resguardou para si os rendimentos
semestrais de uma fazendinha de cacau em Belmonte, Bahia, herdada da tia e
madrinha Virgínia. Só então voltou a Montes Claros, onde cumpriria o restante
dos seus dias.
Dessa
segunda vez veio de mala-e-cuia. Fomos em carro de praça e caminhonete
recebê-la no campo de aviação. Roberto e eu aboletados na carroceria do
utilitário, comendo poeira como se dizia. A chamada boleia ia vazia, mas
voltaria cheia de pertences da avó que chegava. Da primeira vez que esteve
conosco, dona Carlota detestou o colchão de molas e travesseiros de espuma nos
quais dormia. Mas nada disse. Assim, seus travesseiros e colchão de plumas
vieram na aeronave, o colchão enrolado, bem como sua cama, esta desmontada. Daí
a necessidade da caminhonete para o transporte de tais comodidades. Malas com
roupas foram acomodadas no táxi e algumas caixas completaram a carga da
caminhonete. Já em casa, lembro-me de duas dessas caixas sendo abertas. Uma
trazia imagens e quadrinhos de santos, castiçais e redomas de vidro; a outra,
livros religiosos e romances edificantes, como O Conde de Monte Cristo, que
oportunamente ela leria para nós meninos.
Na
nossa casa recém inaugurada, dona Carlota ocupou o cômodo previsto para ser
biblioteca e local de estudo. Este não contava com armário embutido. Um
guarda-roupa foi comprado e outros móveis compunham o aposento, dentre eles uma
cômoda paramentada com rica toalha de linho que ela trouxera e onde acomodou as
divindades: crucifixo grande ao centro, ladeado por nossas senhoras em redomas
de vidro, São José, Santo Antônio, três imagens de deus menino, outras deidades
e dois castiçais em que sempre ardia pelo menos uma vela. O "altar de
vovó", batizamos o arranjo. Uma caixa de tamanho médio, colocada sobre o
guarda-roupa, chamado por ela de guarda-vestido, só seria aberta por ocasião do
Natal - trazia imagens de presépio. Roberto e eu fomos condecorados com
medalhas no pescoço, em fino cordão de prata, e na cabeceira de cada um ela
pendurou um quadrinho de vidro com a estampa da Virgem Maria. Também nas camas
de meus irmãos ausentes, Raymundo e Layce, estudantes em Belo Horizonte, ela
pendurou quadrinhos.
Dona Carlota seguia uma rotina praticamente
imutável. Levantava-se às 5h30 e após as abluções matinais abria a janela do
quarto, sentava-se na penteadeira, empoava-se e refazia o coque, pois dormia de
cabelos soltos após escová-los. Ia então para a poltrona sob a janela e passava
a ler algum dos seus livros de oração. Quando sentia o aroma do café a subir da
cozinha situada abaixo do quarto, descia para tomá-lo. Sempre havia alguma
iguaria baiana no desjejum, fosse aipim (mandioca) na manteiga, batata-doce,
mingau de milho verde, beijus ou banana-da-terra em tiras, fritas e polvilhadas
com açúcar e canela. Eu adorava essa banana frita, mas nem sempre era
encontrada no mercado. Ah, havia também o mingau de maisena em seu cardápio
matinal. Terminado o café da manhã, vovó lia com o auxílio de uma grossa lente
- odiava óculos - os jornais locais Gazeta do Norte, O Jornal de Montes Claros,
comunicados da paróquia da Catedral e o Jornal do Brasil, que chegava aos
assinantes de Montes Claros três dias após sua publicação no Rio. Voltava ao
quarto de dormir para cuidar da correspondência, escrevia ou respondia alguma
carta a bico de pena e passava ao tricô até a hora do almoço.
Vovó
Carlota não era de cozinha. Às vezes apurava o tempero de alguma moqueca. Mas,
a pedido nosso, dos meninos, fazia no tacho deliciosas balas de mel, sérias
concorrentes das famosas puxas das freiras do colégio. E sorvetes e picolés de
babar. Uma vez por semana orientava a cozinheira na feitura de biscoitos que me
mandava entregar às amigas da vizinhança, donas Fininha Ribeiro, Mariana Lopes,
Geny Souto, Amélia Antunes, Lourdes Teixeira, Nininha Rodrigues, Toinha
Deusdará, Maria Santana Machado e Nina Alves França. Vovó não abria geladeira,
temia apanhar uma constipação com a corrente de ar gélido... Tomava água do
filtro ou da bilha do quarto. E não comia nada fora de hora.
Mas era um bom garfo, gostava de tudo e, dependendo do prato, adicionava a este uma banana, costume baiano. Na época de pequi, ia de três a quatro, fato raro para os não nascidos nesta região. Boa baiana, não dispensava a farinha e o molho de pimenta introduzido por ela no novo lar, que papai adorava e eu passaria a apreciar. A receita: pimentas malaguetas e cebolas brancas picadas, imersas em suco de limão. Simples e bão. Na casa do irmão mais velho, Raymundo, esse molho vai diariamente à mesa. Após o almoço, vovó subia para o seu quarto, entregava-se à breve e sagrada sesta e nos recebia, os bisnetos, geralmente com algum amigo. Aos poucos o quarto-oratório impregnava-se do que eu chamava o "cheirinho da vovó". Velas, por vezes incenso, aromatizavam o ambiente. Ainda sinto o cheiro de suas roupas e bolsas quando ela abria o guarda-vestido. Havia ali uma bolsa especial, de couro preto com alças, onde ela guardava suas relíquias: fitas e medalhas de irmandades católicas às quais pertencera em Salvador - admirava sobretudo as de Oblatas do Mosteiro de São Bento -, alianças do casamento, chaves do ossário de meu bisavô Epiphânio e, sobrenatural para nós meninos, uma caixinha de madrepérola contendo mecha dos cabelos do finado. Às escondidas, volta e meia eu vasculhava essa bolsa e suponho ter originado aí a minha tara por bolsa de mulher - saber o que vai dentro. Na bolsa havia também uma carteira de marroquim, comprida, que fora de Epiphânio. Nela, fotos do casal, da filha Edith com meu avô Rubens - vovô Mamão, que pouco conheci - dos netos e bisnetos em criança e um artigo já amarelecido do jornal A Tarde, de Salvador, tecendo elogios à camisaria do Senhor Epiphânio Cruz, situada no Largo de São Francisco, onde podiam ser encontrados finos artigos masculinos importados diretamente da Inglaterra e França.
Lá pelas 4 da tarde vovó tomava o seu banho, se vestia e descia para o café ou chá. Visitava as roseiras do pequeno jardim e sentava-se sempre na mesma cadeira do alpendre para rezar o terço. Eu a observava a passar as contas e mexer com os lábios, murmurando, mas me parecia que o seu olhar andava longe, talvez viajando no passado... A meu ver, ela vivera demais, era a pessoa mais velha que eu conhecia. De vez em quando ela nos mostrava seus álbuns de photographias. Tinham de daguerreótipos até fotos mais recentes, como um exclusivo do Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro, ao qual comparecera. "Quem é essa, vovó?" perguntávamos apontando para alguém num álbum. "Minha amiga Iazinha, já está na eternidade..." respondia ela. "E esse moço?" "O Jonga, boa alma, também na eternidade..." "E esse menino de tranças, vó?" "Meu afilhado Rodolpho, teve morte horrível, atropelado por um bonde. Amputaram-lhe as pernas, mas não resistiu..." Quase todos naqueles álbuns já estavam na eternidade... Eu ficava a pensar: "Quando vovó Carlota irá para a eternidade?" Talvez nunca, concluía, ela é a própria Eternidade!
Após a sopa - dona Carlota não jantava - ela voltava à sua cadeira do alpendre. Acercávamos dela, nós de casa e meninos da vizinhança, e sentados no chão à sua volta ouvíamos fantásticas histórias do tempo da escravatura, de como ela havia ficado a dois metros do imperador Pedro II em uma de suas idas à Bahia, o luxo que cercava a Corte. Contava também a sua vida, de como passara a morar com a tia e madrinha Virgínia aos 13 anos, após a morte da mãe Anna Reys por complicações de parto. Filha única, não podia acompanhar o pai, Modesto de Athayde, nas suas andanças pelos garimpos. De certa feita, viera ele com seus escravos até a cidade diamantífera de Grão Mogol, próxima a Montes Claros. Desviava cursos de rios e explodia montanhas à dinamite, meu tataravô Modesto, e eram essas as histórias de que os meninos mais gostavam. Em menina, vovó Carlota brincava com diamantes e possuía 13 frascos cheios das pedrinhas. Ela então dava uma pausa na narrativa e, de olhos arregalados, boquiaberto, alguém palpitava : "Então a senhora era riquíssima!" Ou: "Onde foram parar esses diamantes?" Ela ria e continuava: "Não tinham valor algum, somente as pedras maiores eram vendidas." E para vendê-las, cinco ou seis pedras de maior quilate, Modesto se deslocava de vapor ao Rio de Janeiro. De lá essas pedras seguiam para Antuérpia, na Bélgica, ou Amsterdam, Holanda, até hoje os maiores centros de lapidarias do mundo. Com o produto da comercialização das pedras, ele deduzia os custos para obtê-las, enormes, saldava dívidas junto a fornecedores de equipamentos para garimpo, reservava o montante necessário ao seu padrão de vida e partia para uma nova aventura, depois de estação de águas com a mulher e a filha, minha bisavó, em Lençóis, Bahia.
Mas era um bom garfo, gostava de tudo e, dependendo do prato, adicionava a este uma banana, costume baiano. Na época de pequi, ia de três a quatro, fato raro para os não nascidos nesta região. Boa baiana, não dispensava a farinha e o molho de pimenta introduzido por ela no novo lar, que papai adorava e eu passaria a apreciar. A receita: pimentas malaguetas e cebolas brancas picadas, imersas em suco de limão. Simples e bão. Na casa do irmão mais velho, Raymundo, esse molho vai diariamente à mesa. Após o almoço, vovó subia para o seu quarto, entregava-se à breve e sagrada sesta e nos recebia, os bisnetos, geralmente com algum amigo. Aos poucos o quarto-oratório impregnava-se do que eu chamava o "cheirinho da vovó". Velas, por vezes incenso, aromatizavam o ambiente. Ainda sinto o cheiro de suas roupas e bolsas quando ela abria o guarda-vestido. Havia ali uma bolsa especial, de couro preto com alças, onde ela guardava suas relíquias: fitas e medalhas de irmandades católicas às quais pertencera em Salvador - admirava sobretudo as de Oblatas do Mosteiro de São Bento -, alianças do casamento, chaves do ossário de meu bisavô Epiphânio e, sobrenatural para nós meninos, uma caixinha de madrepérola contendo mecha dos cabelos do finado. Às escondidas, volta e meia eu vasculhava essa bolsa e suponho ter originado aí a minha tara por bolsa de mulher - saber o que vai dentro. Na bolsa havia também uma carteira de marroquim, comprida, que fora de Epiphânio. Nela, fotos do casal, da filha Edith com meu avô Rubens - vovô Mamão, que pouco conheci - dos netos e bisnetos em criança e um artigo já amarelecido do jornal A Tarde, de Salvador, tecendo elogios à camisaria do Senhor Epiphânio Cruz, situada no Largo de São Francisco, onde podiam ser encontrados finos artigos masculinos importados diretamente da Inglaterra e França.
Lá pelas 4 da tarde vovó tomava o seu banho, se vestia e descia para o café ou chá. Visitava as roseiras do pequeno jardim e sentava-se sempre na mesma cadeira do alpendre para rezar o terço. Eu a observava a passar as contas e mexer com os lábios, murmurando, mas me parecia que o seu olhar andava longe, talvez viajando no passado... A meu ver, ela vivera demais, era a pessoa mais velha que eu conhecia. De vez em quando ela nos mostrava seus álbuns de photographias. Tinham de daguerreótipos até fotos mais recentes, como um exclusivo do Congresso Eucarístico no Rio de Janeiro, ao qual comparecera. "Quem é essa, vovó?" perguntávamos apontando para alguém num álbum. "Minha amiga Iazinha, já está na eternidade..." respondia ela. "E esse moço?" "O Jonga, boa alma, também na eternidade..." "E esse menino de tranças, vó?" "Meu afilhado Rodolpho, teve morte horrível, atropelado por um bonde. Amputaram-lhe as pernas, mas não resistiu..." Quase todos naqueles álbuns já estavam na eternidade... Eu ficava a pensar: "Quando vovó Carlota irá para a eternidade?" Talvez nunca, concluía, ela é a própria Eternidade!
Após a sopa - dona Carlota não jantava - ela voltava à sua cadeira do alpendre. Acercávamos dela, nós de casa e meninos da vizinhança, e sentados no chão à sua volta ouvíamos fantásticas histórias do tempo da escravatura, de como ela havia ficado a dois metros do imperador Pedro II em uma de suas idas à Bahia, o luxo que cercava a Corte. Contava também a sua vida, de como passara a morar com a tia e madrinha Virgínia aos 13 anos, após a morte da mãe Anna Reys por complicações de parto. Filha única, não podia acompanhar o pai, Modesto de Athayde, nas suas andanças pelos garimpos. De certa feita, viera ele com seus escravos até a cidade diamantífera de Grão Mogol, próxima a Montes Claros. Desviava cursos de rios e explodia montanhas à dinamite, meu tataravô Modesto, e eram essas as histórias de que os meninos mais gostavam. Em menina, vovó Carlota brincava com diamantes e possuía 13 frascos cheios das pedrinhas. Ela então dava uma pausa na narrativa e, de olhos arregalados, boquiaberto, alguém palpitava : "Então a senhora era riquíssima!" Ou: "Onde foram parar esses diamantes?" Ela ria e continuava: "Não tinham valor algum, somente as pedras maiores eram vendidas." E para vendê-las, cinco ou seis pedras de maior quilate, Modesto se deslocava de vapor ao Rio de Janeiro. De lá essas pedras seguiam para Antuérpia, na Bélgica, ou Amsterdam, Holanda, até hoje os maiores centros de lapidarias do mundo. Com o produto da comercialização das pedras, ele deduzia os custos para obtê-las, enormes, saldava dívidas junto a fornecedores de equipamentos para garimpo, reservava o montante necessário ao seu padrão de vida e partia para uma nova aventura, depois de estação de águas com a mulher e a filha, minha bisavó, em Lençóis, Bahia.
Nossa
família não ficaria completa sem a chegada do extemporâneo Henrique, o novo
caçula. Exímia bordadeira, vovó teceu e tricotou quase todo o seu enxoval. Se
jamais demonstrara alguma predileção por algum dos bisnetos, o que viria foi o
seu xodó. A Roberto e a mim ela presenteava no Natal e aniversários. No dia a
dia alguns trocados para as matinês, os gibis e álbuns de figurinhas. A Henrique
ela dava brinquedos caros em qualquer época do ano! Roberto e eu, já na segunda
infância, não nos incomodávamos com o chamego dos dois e brincávamos a valer
com o querido irmão, a rapa do tacho.
Fomos
crescendo e vovó Carlota envelhecendo ainda mais. Já não ia a pé ouvir missa na
Catedral. Aos domingos, arrumava-se e ficava a esperar seus amigos Deraldo e
Nininha Rodrigues para levarem-na de carro à igreja. Quando alguma procissão ia
passar pela nossa porta, ela não tinha a energia de antes para estender sua
colcha de brocado na janela e colher flores para ornar os dois vasos colocados
sobre a mesma - mamãe a substituía. Em pouco tempo já não ia à missa e suas
refeições lhe eram servidas na pequena escrivaninha do quarto – papai a
proibira de descer a perigosa escada. Como nunca vivera período inflacionário e
a década de 1960 foi pródiga em carestia, ela continuava a entregar a mesma
quantia à nossa boa Aparecida para fazer suas compras de farmácia. Certo dia, Aparecida
disse a papai: “Dr. Aroldo, o dinheiro de dona Carlota não está dando para
comprar o que ela encomenda...” Papai ponderou: “Ela faz questão de comprar
suas coisas, que assim seja. Faça o seguinte, mande a farmácia anotar o que ela
quiser em minha conta, fique com o dinheiro e entregue algum troco a ela...”
A ida
do homem à Lua, em 16 de julho de 1969, foi um salto tecnológico sem
precedentes na história da humanidade. Estudante em Belo Horizonte, eu passava
as férias em casa. Vovó Carlota não acreditava na façanha americana. “É tudo
mentira, fizeram um filme em algum deserto, tiraram retratos em alguns
cenários...” Não houve meios de convencê-la de que Neil Armstrong pisara o solo
do nosso satélite natural aos 20 de julho daquele ano. E aos 23 de dezembro
Vovó Carlota partiria para a Eternidade – ruptura dos capilares – às vésperas do
seu aniversário. Nascera em 26 de dezembro de 1872. Viveu no planeta Terra
quase 97 anos. Salve a eterna Vovó Carlota!
