CORI
Haroldo Tourinho Filho
"Hoje, encantou um passarinho/O menino Cori bateu asas
Voou para o céu, para o seu lugar/Era cândido demais para este mundo.
Está em seu poleiro, nas nuvens/Ficaram suas canções nas vozes
E nas almas dos nossos jovens.
Fomos amigos por toda uma infância.
Triste, eu envelheci." RIBEIRO, Ucho.
CORIOLANO GONZAGA NETO (11.10.1960 -14.05.2013), recebeu este nome de batismo em homenagem ao avô, velho comerciante de Montes Claros, um dos pioneiros no ramo óptico. Cori, como chamado por todos, há menos de um mês nos deixou e deixou muitas saudades. Não virou estrela, já o era, pois considerado um dos melhores compositores do nosso Geraes. Adorava humanos e animais e, além de nós, Bela, sua gatinha de estimação, deve estar inconsolável. Cori não apenas compunha pérolas de canções, também as tocava ao violão e guitarra e as interpretava como ninguém. Além de músico, possuía rara habilidade com as mãos, talvez originada do seu trabalho quando jovem na ótica dos Gonzagas. Seus móveis, móbiles e jóias artesanais testemunham essa aptidão, basta ve-los.
Cori cresceu na rua Irmã Beata, ali atrás da Santa Casa, onde malinava com os Ribeiros, Juquita e Ruy Queiroz, os filhos do Cel. Georgino de Souza, o batera e baixista Dimas, dentre outros. Passava férias no distrito de Miralta, local de nascimento da mãe, a bondosa e simpática dona Clarice, onde o boa praça Toninho Gonzaga fora buscá-la para casar. Ali convivia com violeiros e cantores do folclore norte-mineiro e músicas sertanejas. Esta foi a sua primeira influência musical. Depois passaria a curtir MPB, o pop inglês, o folk americano, e delirar com a música mineira do clube da esquina. Já violonista, em uma ida a Belo Horizonte com o amigo Biola assistiu, no DCE - Diretório Central dos Estudantes - da UFMG, a uma apresentação do grupo Raízes, fundado em São Paulo, 1973, por Charles Boa Vista, Ângela, mulher deste, e Tino Gomes. Cori deslumbrou-se, era aquilo que procurava.
Atores profissionais de teatro, o trio, nos intervalos dos ensaios, em hotéis e bares, distraía a troupe com suas danças, sapateados e canções. Os colegas incentivaram a divulgação e documentação do trabalho e daí ao primeiro LP foi um pulo, nasceu o comemorado LP Grupo Raízes, gravado em 1974. O conjunto viria a se apresentar em todo o Brasil, notamente no circuito universitário do estado de São Paulo, auditórios do norte-nordeste e em temporada no teatro Opinião, Rio de Janeiro.
O Raízes sobreviveu até 1982, tendo Cori Gonzaga dele participado nos dois, três últimos anos, quando o grupo esteve baseado em um sítio próximo a Sabará, cidade vizinha a Belo Horizonte. A nova formação incluía Zé Henrique - Penico, já falecido -, José Dias, atualmente diretor da Ordem dos Músicos do Brasil, e Cori, então com 18/19 anos. Além da participação nos shows, Cori gravou como instrumentista e vocalista o último LP do grupo, Olhe bem as montanhas, canção título de Boa Vista. Assina também duas canções do álbum, A vida do violeiro e Se eu pudesse voltar pra roça.
Findo o grupo, Cori não parou de compor. São inúmeras suas apresentações e composições, com o risco de grande parte destas se perder, uma vez que não foram escritas em partitura. A salvá-las do esquecimento, algumas - poucas - gravações e a memória de músicos amigos e fãs. Vencedor de festivais, dos três ou quatro dos quais participou em Montes Claros - Festivais do Pequi -, levou o primeiro lugar em um deles, com a canção (da qual não lembro o título nem a secretaria de Cultura soube informar...), e o terceiro por ocasião do sesquicentenário da cidade, 2007, defendendo Princesa do Norte*, canção cuja letra é de nossa autoria, com muita honra por sinal.
Figura profundamente ecológica, Cori adorava matas, cursos d'água, cachoeiras e, não menos, corrutelas, com suas vendas e violeiros. E comida pesada, condimentada - foi cozinheiro de mão cheia, um curraleiro de coração.
Figura profundamente ecológica, Cori adorava matas, cursos d'água, cachoeiras e, não menos, corrutelas, com suas vendas e violeiros. E comida pesada, condimentada - foi cozinheiro de mão cheia, um curraleiro de coração.
Mesmo sem esquecer a Música, nos últimos anos Cori vinha se ocupando da administração de uma pousada na antiga residência da família. Impressionava a todos a sua extrema dedicação aos enfermos que ali se hospedavam com vistas a exames e tratamentos na Santa Casa. Eram crianças e jovens, velhos em fase quase terminal, que ele acudia, consolava, acarinhava, divertia, com sua sensibilidade e boa vontade inexcedíveis. Como bem disse nosso amigo Ucho na epígrafe, todos nós envelhecemos com o seu encantamento. Do seu casamento com Cláudia Pompéu, nosso grande Cori Gonzaga deixa dois filhos, Ian e Daniel.
* Disponível no youtube.com
Princesa do Norte, letra:
Eras menina
Pés descalços no pó da poeira de becos sem fim
Dois Irmãos ainda guardam da serra o teu ir e vir.
O teu perfume envolve as minhas manhãs
O teu olhar tudo vê sem se revelar
E mesmo entre a gente pagã
Com um tercinho a brilhar
Rolavas as contas do tempo a pensar
Oh, minha princesa do norte
Meu contraforte, berço, leite, doce sorte
Agora senhora de si
A menina que vi
Ó minha princesa do norte
Meu contraforte, berço, leite, doce sorte
Agora senhora de si
A menina que vi.

