Para o amigo e editor-chefe, Reginauro Silva, in memorian
Ocasionalmente, paro para dar um balanço parcial nesta minha já mais ou menos longa trajetória por este belo planeta, Terra, o que fazemos todos os humanos, penso eu. As primeiras cenas que vejo – memorando – são como instantâneos interiores que registram algum momento sem causa ou efeito aparente, congelado em si mesmo. É como percorrer um velho álbum de fotografias.
Cronologicamente, na abertura deste álbum estou em uma aeronave, sinto cheiros novos – tecido sintético, plástico, aço/alumínio -, o primeiro misto quente, a primeira Coca-Cola, turbulências, vomito em um saquinho que a mão da moça veda ao puxar um cordão. Foi o seu vôo inaugural, esclareceu-me minha memória auxiliar – mamãe. E continuou: Um DC-3 da Panair do Brasil levou-nos, seu pai, eu, você e Roberto, de Montes Claros a Salvador. Havia escalas em Pedra Azul e Ilhéus. Sobrevoando Pedra Azul, o avião jogava muito. Ali você vomitou, depois de lanchar. Elucidada, portanto, a minha primeira questão existencial.
Em seguida estou com os braços suspensos, buscando em vão alcançar um filtro vermelho de barro. Aonde fora isso? Responde minha MA: Na casa de sua bisavó, Carlota, na rua Carlos Gomes, próxima à praça Castro Alves. Num instante passo a um bonde, novidade. Salto em Ondina, piscina natural entre pedras, água salgada, ardor nos olhos, balde e pá, areia. A careca de vovô Mamão, assim chamávamos os netos o pai de minha mãe, encerra o registro dessa viagem. Tinha eu quatro anos.
O pano volta a subir aos cinco, quando me impuseram a escola. Acabava-se o que fora doce. Para sempre. Curso pré-primário, aonde ia eu todas as santas tardes, paradoxalmente alegre e saltitante – assoviando! Grupo Escolar Dom João Antônio Pimenta, casarão colonial de dois andares, o segundo com área menor, localizado na Semeão Ribeiro com Governador Valadares, diagonal do bazar de Jabbur, hoje lanchonete Crystal.
Descia eu a Pedro II e, logo ali na esquina da dr. Santos (eu morava na São Francisco), juntava-me a Cassimiro Colares, Reginaldo Lafetá e Sérgio Deusdará, estes, vizinhos. Formava-se então a trinca, uniformizada, mas dela só me lembro dos suspensórios que usávamos. E de Reginaldo a nos contar como sua irmã, Fátima, morrera afogada (daí o Cine Fátima, construído por seu pai - Lezinho - alguns anos depois).
Fila dupla para a entrada em aula, uma ressequida goiabeira no pátio de cimento do casarão, escada de madeira que levava ao andar superior... Frequentávamos, a trinca, a mesma classe, no térreo. Ali, tudo o mais me escapa. Não me recordo da professora ou de seu nome - Lili? - nem das aulas, nem dos colegas, nem mesmo de meus amigos em ação – batalhas com bolinhas de papel, sim, me lembro bem, levei uma pregada num olho. Do meu processo de alfabetização revejo apenas mamãe, a recortar letras grandes em revistas e jornais, colá-las em quadrados de cartolina, de sorte a formarem sílabas e pequenas palavras, o meu beabá.
Por certo, nessa época, a chegada de um novo bispo diocesano, dom José Alves Trindade, galvanizara a cidade. Vejo-me, quando de sua primeira aparição pública, numa catedral apinhada – jamais eu vira tanta gente junta -, o incenso e o lusco-fusco do entardecer a embaçar parcialmente a visão das coisas. Postado no fundo da nave, a alguns passos da porta principal do templo, eu via aproximar-se, a duras penas devido ao beija-mão, o imponente vulto de roxo, com um cetro (cajado, hoje sei) de prata e um chapelão cônico (ops!, mitra). No anular da mão direita, igualmente roxa, uma pedrona incrustrada em ouro. Que me recusei a beijar, por me parecer nojenta toda aquela baba em volta. Que povo, lambia a mão do prelado!
Daí, dessa aproximação com a Igreja, deve ter nascido a brincadeira de missa que engendramos, eu, meu irmão Roberto e nosso amigo e vizinho de frente, Edmilson Lessa. Um crucifixo, umas tantas imagens de santos e algumas velas adornavam o cenário. Paramentados com toalhas de banho sobre os ombros, que nos caíam aos pés dado à nossa altura, entrávamos na liturgia. Roberto e Edmilson se revezavam nos papéis de padre e sacristão. Eu, com uma carapaça de papel de seda roxo, fazia o bispo, sempre. Os santos ofícios findaram no dia em que Roberto se rebelou: Ou eu também sou bispo nesta merda de igreja, ou não sou nada, não brinco mais!
