9.12.11

A ENJEITADA*

Pensar que teria sido melhor não dar à luz não mais valia, ela estava ali, vivinha da silva, mamando gostosamente em meus peitos. Gulosa! Só não extirpara a bichinha porque o tempo passara demais e a aborteira me disse que poderíamos vir a morrer, vítimas do mesmo evento, ou, eu, mãe, logo depois, de complicações...

Mãe Preta, a quem confesso que consultei, para firmar posição, repicou o malfadado prognóstico da outra, e ajuntou que o ato constituiria suicídio e, se, porventura, eu, Terezinha de Jesus, sobrevivesse, assassinato, ambos condenados pela lei de Deus. E com este meu nome, disse ela, em homenagem a Ele, eu jamais poderia me expor àquilo. Que não me avexasse e deixasse o destino rolar, concluiu.


A cadelinha estava agora aconchegada ao meu outro seio. Continuava a sugar sem sofreguidão o leite a jorrar. Fiapo de gente, pouco mais de dois quilos, e tamanha disposição! Alma predestinada... à quê? à fome e à prostituição? Ah, não, eu não devia chorar nem temer, Mãe Preta me dissera, desmamada a criança, caso o pai não compareça, o Terreiro a adotará.
Seria essa a sina de minha menina, ninada em nagô, virar algum dia mãe de santo? Se fosse, que fosse, estava traçado. Sim, sim, para o Terreiro iria minha cria, pois o pai, quem seria o pai? nem mesmo eu, mãe, sabia. Amanhã, alta do hospital, para onde iremos, Deus meu?! era nisso que eu devia pensar.