Tininho SilvaLembro-me que briguei com meu pai pelo menos durante uns dois anos por causa da minha pretensão de trabalhar, o que ele impedia argumentando que isso iria me atrapalhar os estudos. Até que ele admitiu que eu fosse trabalhar na Farmácia e Drogaria São Félix, como caixa “...e, assim mesmo, porque preciso de alguém de confiança para ocupar o lugar”, disse-me, quando afinal o venci pelo cansaço. Havia completado treze anos quando fui apresentado a Emanuel Duarte Pinto, o “Manuelão”, e ao Valdemar Rodrigues, vulgo “Carabina”, que eram os práticos farmacêuticos e atendentes.
Eu decidira que o único remédio eficaz para minha já notória timidez seria a exposição ao público de um estabelecimento comercial, pois seria obrigado a entrar em contato com toda sorte de gente. E calhou que meu pai comprou a Farmácia e Drogaria São Félix do famigerado Juca de Chichico, em sociedade com doutor Geraldo Correa Machado, mais conhecido por “Bilé”.
A farmácia ficava na região central de Montes Claros, na esquina de ruas Padre Augusto e Doutor Santos, tendo como vizinhos os Bancos Agrícola, Crédito Real e do Comércio. Em um quarteirão abaixo ficavam o Hotel São Luís e a Praça Dr. Carlos, onde se situava o antigo mercado, demolido para dar lugar a um estacionamento.
Fiquei frustrado por ter que começar a trabalhar na função de caixa, o que me afastava de meus propósitos iniciais, mas, como isso servia ao propósito maior – o de trabalhar - aceitei sem pestanejar. Outro motivo que me levou a trabalhar tão precocemente foi a inveja que eu nutria pelo meu primo Geraldo Honorato e por Noé Meira, além de alguns outros conhecidos meus, arrimos de família, que eram financeiramente independentes e tinham uma liberdade de ir e vir como eu jamais conhecera.
Lembro-me que meus amigos Luiz Milton, Nenzão, Piculino, Luiz Carlos e Rui Queiróz apoiaram-me nessa empreitada e o demonstravam com esfuziante alegria, principalmente aos sábados, domingos e feriados, quando eu tinha de trabalhar de plantão, cumprindo uma escala previamente acordada entre as farmácias da cidade. Nessa ocasião, os amigos, devidamente acompanhados de belas garotas, passavam em frente à farmácia, chamavam-me e entoavam o estribilho “...trabalha, trabalha, negro, trabalha, trabalha, negro...”. É para isso, mesmo, que servem os amigos, para expressar sua solidariedade nos momentos mais difíceis.
Aos poucos, fui abandonando o caixa e iniciando minha trajetória de balconista, aviando uma receita aqui, outra ali, sob a supervisão de “Manuelão”, que era, também, uma espécie de gerente, e de Valdemar “Carabina”. Foi nessa ocasião que fiquei conhecendo nosso personagem, o Beto Mandrix, que trabalhava na farmácia como atendente e como enfermeiro, e cuja história passo a narrar:.
Mais velho do que eu uns cinco anos, Beto já havia trabalhado em várias farmácias da cidade, não conseguindo fixar-se em nenhuma delas.
Desde cedo, viciou-se em Mandrix, um sonífero que misturado ao álcool colocava-o em estado de alerta por até 24 horas. Daí, vinha o seu apelido, já que todos que o conheciam sabiam de seu vício. Ele contou-me que trabalhava em farmácias para ficar mais perto de seu objeto de adoração e que, dessa forma, sentia menos compulsão em usar a droga. Era, dizia, uma espécie de terapia, semelhante à do fumante que deseja abandonar o cigarro, mas gosta de ter um maço à mão, em caso de recaída.
Foi tomando conhecimento da composição de alguns remédios e de seus efeitos colaterais, principalmente. Tornou-se um apaixonado leitor de bulas e em pouco tempo já estava familiarizado com cloridratos, brometos e bromatos, nitratos, tartaratos, estearatos e os mais diversos tipos de álcool – aprendendo, por exemplo, que os alcoóis medicinais sempre terminavam em enol ou etila – e outras substâncias, cuja utilidade logo, logo se revelariam.
Nessa época, pouco ou quase nada se comentava sobre o uso de drogas em Montes Claros e, se alguém as usava, o fazia tão discretamente que passava despercebido. É lógico que aquelas drogas que os estudantes usavam para se manter acordados em véspera de provas finais, como Pervintin, eram conhecidas. Mesmo assim, seu uso era restrito a uma meia dúzia. Até que um dia caiu em suas mãos uma brochura de propaganda do laboratório americano Smith, Kline & French, fabricante de anfetaminas, das quais as mais conhecidas eram o Dexamil e a Dexedrina Spansule.
Não demorou muito para que Beto resolvesse testá-las com seus amigos mais chegados, cujo nome não declinarei aqui, preservando o anonimato de suas cobaias. Só sei que, primeiro com o Dexamil e, mais tarde, com a Dexedrina Spansule, ele e os amigos tomaram uma tal intimidade com as anfetaminas que uma festa sem a sua presença mais parecia um velório. Em ambos os casos, o efeito pretendido era dar aos usuários uma desenvoltura que a timidez impedia de alcançar por meios naturais, e os efeitos colaterais eram os mesmos: dava uma tremenda loquacidade no freguês, o que o obrigava, na maioria das vezes, a esconder a boca com as mãos em concha, visto que o maxilar, após excessivas sessões de conversação, tendia a ficar meio fora de controle.
Outro efeito colateral, disse Beto, é que o cliente perdia o sono e, acabada a festa, corria o risco de ficar na solidão, sem ter com quem conversar e expor as idéias mais estapafúrdias que, geralmente, acorriam à sua mente, agora em estado próximo da iluminação. Contou-me que certa vez, terminada a festa no Automóvel Clube – ele morava bem ao lado – acompanhou um amigo à casa de seus pais, que ficava mais próxima do centro e que o amigo, já à porta de casa, resolveu acompanhá-lo de volta à sua casa, pois ainda tinha muito o que conversar e, nessa troca de gentilezas – Beto o levava à sua casa e o amigo retornava-o à dele – fizeram o trajeto, no mínimo, por uma meia dúzia de vezes.
Tornou-se “expert” no assunto e era, sempre, requisitado pela turma às vésperas de alguma festa importante. Expandiu seus horizontes e passou a estudar, atentamente, a bula de outros medicamentos, em busca de alguma coisa mais próxima do natural e que não tivesse efeitos colaterais tão desastrosos. E, assim, ficou conhecendo o Rhino Steg, um remédio para as afecções nasais tais como rinites, alergias e sinusites e que, diluído em algum líquido como Coca-Cola ou uísque, tinha sobre Beto e seus companheiros de experiências um efeito fantástico: eram capazes de falar horas e horas sobre os mais diversos assuntos, indo da cosmologia à teoria da relatividade de Einstein num átimo.
Nessa altura do campeonato, disse-me Beto Mandrix, quem era tímido já havia se curado e quem era santo estava endiabrado. Dançávamos, disse-me, sempre, com as mais belas garotas de todo e qualquer baile, de tão ousados nos tornamos. Éramos como dr. Jekill e mr. Hyde: após ingerir nossas miraculosas poções, virávamos outros. Não cabíamos nas calças de tão contentes e loquazes. E partimos para outras aventuras no mundo farmacêutico. Dessa vez, descobri o Tetracloroetileno, um remédio para vermes que era apresentado em bolinhas gelatinosas e que, esmagadas, soltavam um líquido de odor não muito agradável. Mas, após inalar aquela iguaria, o céu era o limite.
O aloprado presidente Jânio Quadros deixou algumas lembranças para os brasileiros, dentre as quais se destacaram a proibição do lança-perfume e da briga-de-galos, a popular “rinha”. O lança-perfume, descoberto acidentalmente nos laboratórios da Rhodia em Paris, era uma mistura de cloreto de etila e essência de violeta sintética. Já o Kelene, um anestésico tópico escolhido por Beto e seus amigos como seu substituto, era cloreto de etila em seu mais alto grau de pureza. Faltava-lhe o aroma da violeta, explicou-me, mas seus efeitos eram igualmente sensacionais. “Dava um “Zuuuiiiimmmmmm” nos ouvidos e, nos bailes de carnaval em que o usávamos, havia momentos em que o som era completamente isolado e celestial, ao mesmo tempo em que os bailarinos dançavam em câmera lenta e pareciam estar participando de algum solene ritual de purificação ou sacrifício.”
Simultaneamente às suas experiências com essas drogas que, acreditava, lhe abririam as portas da percepção, tal como a mescalina o fez com Aldous Huxley, os amigos de Beto conduziam sessões paralelas de experimentação. Nestas, contou-me, um desses amigos, aplicado aluno de química – e que somente usava perfumes de sua própria fabricação – iniciou-o na arte da inalação de clorofórmio com éter. Essa mistura, habilmente manipulada pelo amigo em doses cuidadosamente mensuradas, era usualmente derramada generosamente em travesseiros dispostos sobre aquelas estantes usadas para aviar receitas em farmácias antigas, o que permitia ao usuário afastar-se do travesseiro assim que atingisse um estado nirvânico, para tomar fôlego e recuperar um pouco de sua sanidade mental.
Assim, usando de alguns elementos químicos e de muita imaginação, disse-me Beto, escapávamos de nossa realidade, a essa altura já conspurcada pelo golpe militar de 64 e pelo aparecimento de um racha em nossa turma, e que nos causou, inocentes que éramos, uma dor e uma perplexidade muito grande, causado pelo súbito conhecimento da separação que a sociedade introduz entre as classes sociais diferentes, e pela premente necessidade que tivemos alguns de nós de afastar-se de Montes Claros, com o objetivo de complementar os estudos na Capital e em outras paragens.
Ao final de 67, Beto Mandrix foi aprovado no vestibular de Medicina da Federal e mudou-se para Belo Horizonte. Assim, após dar o que ele mesmo chamava de “ sua humildade contribuição para a ampliação dos corações e mentes dos amigos e companheiros de copo e de cruz”, abandonou sua incipiente carreira de prático de farmácia. A última notícia que tive de Beto dava-o como um ativo membro da Seita do Santo Daime, embrenhado nas matas do Norte do País, em sua busca perene pela iluminação.
Quanto a mim, trabalho, atualmente, no TRE, também em Belo Horizonte. E meu amigo Piculino mantém a tradição de solidarizar-se comigo, quando, de dois em dois anos, tenho que fazer plantão no dia da eleição. Nesse dia, em minha homenagem, ele enche a casa de amigos, como Chico Ornelas e dona Raquel, Heloísa Jardim, Ademir Crioulo, Augustão Bala Doce, Lidê e outros folgados, cozinha alguma comida que ele sabe que eu aprecio, como arroz com pequi, galinhada e outros pratos que lembram nossos velhos tempos de Montes Claros, e, a cada garrafa de Viriatinha ou Canarinha aberta, eles ligam para o meu celular e brindam em minha homenagem. Amigo é assim, mesmo.
Está tudo bem agora...
Em 05/12/2008 07:30, ">Juventino Carlos Marques da Silva escreveu:
Cabaret,
meu velho amigo, operei no dia 20 de novembro passado, logo após nossa brilhante Festa dos Sessentões, onde vc foi um mestre de cerimônias da pesada; agora, já retirei a sonda - que usava pra fazer xixi - e estou em plena recuperação...
Foi um prazer enorme encontrar vc em MOC City em meio a tantos amigos e lembranças, entre as quais uma agora me ocorreu: certa vez, vc convidou a mim e a um bando de outros esfomeados pra lanchar em sua casa, fomos e comemos tudo que vimos pela frente; Henrique era novinho e nos assistia naquela comilança e volta e meia fazia um comentário:"...xi, comeram a manteiga da vovó; Minha Nossa, agora comeram a goiabada do papai; caramba, vai ter briga:comeram o chocolate da mamãe..." e por aí ele ia, irradiando a nossa festa...lembra-se disso?
Abraços.
Tininho
PS - Muito obrigado por escrever-me...
Cabaret,
meu velho amigo, operei no dia 20 de novembro passado, logo após nossa brilhante Festa dos Sessentões, onde vc foi um mestre de cerimônias da pesada; agora, já retirei a sonda - que usava pra fazer xixi - e estou em plena recuperação...
Foi um prazer enorme encontrar vc em MOC City em meio a tantos amigos e lembranças, entre as quais uma agora me ocorreu: certa vez, vc convidou a mim e a um bando de outros esfomeados pra lanchar em sua casa, fomos e comemos tudo que vimos pela frente; Henrique era novinho e nos assistia naquela comilança e volta e meia fazia um comentário:"...xi, comeram a manteiga da vovó; Minha Nossa, agora comeram a goiabada do papai; caramba, vai ter briga:comeram o chocolate da mamãe..." e por aí ele ia, irradiando a nossa festa...lembra-se disso?
Abraços.
Tininho
PS - Muito obrigado por escrever-me...

