CARLOS JOSÉ MARQUES
Isto é num. 2014
09.06.2008
A fome no mundo chegou a níveis críticos. Na semana passada, em Roma, a Conferência da FAO – braço da ONU que pilota o ritmo global de produção de alimentos e da agricultura – mostrou às autoridades de 180 países que se algo não for feito urgentemente o aumento de preços e a escassez de produtos vão se alastrar de uma forma descontrolada. O documento final da FAO diz que a comida não pode ser usada como “uma arma” política e econômica e que essa tática de defesa de interesses individuais, adotada por muitos, tem de mudar de maneira acelerada. Na cesta de problemas identificados por especialistas durante a conferência, os embargos de mercado e os subsídios praticados por países protecionistas se destacam e, no entender deles, estão comprometendo qualquer ação conjunta para reverter o quadro. A FAO traçou metas ambiciosas: quer reduzir a fome pela metade até 2015. Poucos acreditam na possibilidade. Argentina, Cuba e Venezuela, participantes do encontro, trabalharam duramente para que o texto final saísse modificado. Eles questionaram a falta de medidas concretas. Cuba, por exemplo, tentou introduzir no relatório o tema do embargo que seu país sofre dos EUA. Outros tacharam de limitado o teor das propostas. Há um claro e histórico embate entre os chamados países ricos e países pobres. No segundo clube estão alguns dos maiores produtores mundiais, que têm de vender seus produtos carregando uma forte tributação imposta pelos compradores para atender aos interesses dos fornecedores locais. O preço dos alimentos, é consenso geral, ultrapassou todas as previsões. Somente no Brasil, para se ter uma idéia, esse é o item que vem provocando uma forte retomada inflacionária. A especulação com as commodities virou regra. A Bolívia chegou a apresentar uma idéia inusitada para fazer frente ao problema: sugeriu que os ricos financiem um fundo mundial responsável pela compra de estoques para casos de emergência. Funcionaria como uma espécie de FMI dos alimentos. Curiosamente, pode estar surgindo assim um banco credor dos devedores da fome. Era o que faltava!
