Renato Ferraz
Correio Braziliense
16.05.2008
Pelo menos 25 trabalhadores rurais morreram, no ano passado, em função dos quase eternos conflitos fundiários. O programa de reforma agrária não anda. Faltam nele, por exemplo, projetos de assistência técnica de qualidade e de financiamento. As bolsas de auxílio financeiro resolvem, em parte, o problema de alguns — principalmente daqueles que moram em periferias, naquela zona híbrida entre a roça e a cidade.
No entanto, esse tipo de ajuda ainda (felizmente) envergonha alguns e vicia (infelizmente) outros. Por essas e outras razões, há no campo uma clara e justificada frustração. Então, centenas de agricultores sem-terra resolvem invadir a capital federal para demonstrar esse descontentamento. E o que acontece? Ora, a bala do apelo volta-se para eles: ninguém os ouviu e ainda os culparam pelo caos que provocaram no trânsito.
É triste ver que nós, no aconchegante calorzinho dos nossos carros de vidros fechados, os ignoramos. Pior: ficamos indignados porque chegamos meia hora atrasados ao trabalho, à escola, à aula de inglês. Demonstramos, nesse caso, ser apenas resultado de um amor excessivo a um bem próprio — no caso, uma rotina burocrata que ninguém tem o direito de nela interferir. Não é essa a Brasília que aprendi a amar. Uma Brasília de presunçosos, de exclusivistas. De gente pouco, ou quase nada, altruísta. Sem consideração aos interesses alheios. É a Brasília que gira em torno dela mesma.
Não podemos, jamais, esquecer que moramos na capital do país — palco mais do que natural de manifestações desse tipo. Aliás, o lugar foi concebido, com escala gigantesca, para tanto. Além do mais, não devemos nunca deixar de, pelo menos, tentar entender quem vem aqui denunciar, protestar, gritar, pedir, exigir, implorar. No caso dos camponeses, aquelas figuras de rosto enrugado e excessiva timidez que entupiram o Eixo Monumental gostariam apenas de viver em dignidade. Por isso, aproveito esse espaço para parabenizar um anônimo policial militar que, fugindo ao estereótipo de grosseiro e mal-educado, foi acalmar uma irritada madame que bunizava insistentemente: “Senhora, eles não estão fora da lei. E em mais cinco minutinhos sairão do seu caminho.” Saíram em três.
Correio Braziliense
16.05.2008
Pelo menos 25 trabalhadores rurais morreram, no ano passado, em função dos quase eternos conflitos fundiários. O programa de reforma agrária não anda. Faltam nele, por exemplo, projetos de assistência técnica de qualidade e de financiamento. As bolsas de auxílio financeiro resolvem, em parte, o problema de alguns — principalmente daqueles que moram em periferias, naquela zona híbrida entre a roça e a cidade.
No entanto, esse tipo de ajuda ainda (felizmente) envergonha alguns e vicia (infelizmente) outros. Por essas e outras razões, há no campo uma clara e justificada frustração. Então, centenas de agricultores sem-terra resolvem invadir a capital federal para demonstrar esse descontentamento. E o que acontece? Ora, a bala do apelo volta-se para eles: ninguém os ouviu e ainda os culparam pelo caos que provocaram no trânsito.
É triste ver que nós, no aconchegante calorzinho dos nossos carros de vidros fechados, os ignoramos. Pior: ficamos indignados porque chegamos meia hora atrasados ao trabalho, à escola, à aula de inglês. Demonstramos, nesse caso, ser apenas resultado de um amor excessivo a um bem próprio — no caso, uma rotina burocrata que ninguém tem o direito de nela interferir. Não é essa a Brasília que aprendi a amar. Uma Brasília de presunçosos, de exclusivistas. De gente pouco, ou quase nada, altruísta. Sem consideração aos interesses alheios. É a Brasília que gira em torno dela mesma.
Não podemos, jamais, esquecer que moramos na capital do país — palco mais do que natural de manifestações desse tipo. Aliás, o lugar foi concebido, com escala gigantesca, para tanto. Além do mais, não devemos nunca deixar de, pelo menos, tentar entender quem vem aqui denunciar, protestar, gritar, pedir, exigir, implorar. No caso dos camponeses, aquelas figuras de rosto enrugado e excessiva timidez que entupiram o Eixo Monumental gostariam apenas de viver em dignidade. Por isso, aproveito esse espaço para parabenizar um anônimo policial militar que, fugindo ao estereótipo de grosseiro e mal-educado, foi acalmar uma irritada madame que bunizava insistentemente: “Senhora, eles não estão fora da lei. E em mais cinco minutinhos sairão do seu caminho.” Saíram em três.
