14.4.08

BYE-BYE AMÉRICA - BRASILEIROS NOS EUA

SOLANGE AZEVEDO
Época num. 0517
12.04.2008
Como estão vivendo os milhares de brasileiros que a crise econômica e a perseguição aos imigrantes ilegais expulsaram dos EUA
O mineiro Rodrigo Almeida de Paula, de 36 anos, passou mais da metade da vida nos Estados Unidos. Desembarcou em Nova Jersey em 1988, junto com os pais e um irmão. “A idéia era voltar logo, com a minha mãe, enquanto meu pai e meu irmão continuariam por lá. Mas me acostumei e resolvi ficar”, diz. Em pouco tempo, Rodrigo se desligou do Brasil. Não lia mais notícias sobre o país, deu para o irmão os CDs de Lulu Santos, Capital Inicial e Legião Urbana. Com os novos amigos de colégio, só ouvia música americana. No mercado de trabalho, começou distribuindo jornal, cortou grama e foi entregador da FedEx.
Conseguiu alguma prosperidade como pintor de residências. Montou uma empresa, contratou três funcionários e trabalhava 16 horas por dia. Ganhava, sozinho, mais de US$ 4 mil por mês. Em 20 anos de América, Rodrigo financiou uma casa de US$ 400 mil. Casou-se duas vezes e teve uma filha, Stephany. “Criei raízes e construí uma vida estável nos Estados Unidos. Não pensava em voltar ao Brasil”, afirma. A solidez do mineiro foi destruída pela crise imobiliária americana. “Durante todo o ano passado, tentei segurar a empresa. Mas não tinha mais trabalho, e eu fali.” Rodrigo deixou tudo para trás. Sem dinheiro, voltou a morar com os pais em Governador Valadares, no interior de Minas Gerais.
Histórias iguais à de Rodrigo hoje são contadas às centenas em Governador Valadares. “Nos últimos quatro meses, pelo menos 3 mil pessoas deixaram os Estados Unidos e voltaram à cidade”, diz o prefeito, José Bonifácio Mourão (PSDB). O êxodo é debatido nas mesas de bar, nas lojas e nas ruas da cidade de 260 mil habitantes. Por que tantos brasileiros estão abandonando a América? A crise financeira que eclodiu no ano passado e quebrou Rodrigo é uma das razões do retorno. Ela começou no mercado imobiliário. Nos últimos anos, os bancos americanos ampliaram tanto o financiamento que passaram a emprestar em grande volume para pessoas com histórico de crédito ruim. As promissórias desses emprestadores de risco eram incorporadas a títulos do banco, que eram vendidos no mercado – e ganhavam, das empresas de avaliação de investimentos, notas altas, como se não houvesse risco em comprar esses papéis. Até que o ciclo se rompeu. Muita gente parou de pagar suas promissórias e os bancos arcaram com prejuízos de bilhões de dólares. Como os papéis eram vendidos como títulos para vários setores da economia, até hoje não se sabe ao certo o tamanho do estrago dessas práticas descuidadas. Uma coisa parece certa: a maior economia do mundo entrou em recessão. “Tenho amigos que empregavam 20, 30 pessoas e também faliram”, diz Rodrigo.
Dos que voltam, 82% não sabem o que fazer no Brasil. E 28% querem tentar a sorte, desta vez na Europa
De volta a Valadares, o mineiro está “recomeçando do zero”. Voltou a estudar. Aluno do 1o ano do ensino médio, ele pouco sai de casa. Vive o estranhamento característico de quem habita por muito tempo outro país e demora a se readaptar à nova rotina. “O meu território são os Estados Unidos. Quando cheguei ao Brasil, foi como se estivesse num lugar estranho. Tudo é novidade. Nem sei como trabalhar no Brasil.” Rodrigo construiu nos EUA uma vida que acreditava ser estável. Ao contrário de muitos brasileiros que se arriscam na ilegalidade para juntar dólares e garantir um futuro confortável na volta ao Brasil, ele não se preocupou em poupar. Não fez nenhum investimento no Brasil, pois não tinha intenção de morar novamente aqui.
Uma pesquisa recente da socióloga Sueli Siqueira, professora da Universidade Vale do Rio Doce, de Governador Valadares, mostra que 82% dos emigrantes que voltaram à região não têm idéia do que vão fazer no Brasil. E 28% têm intenção de trabalhar na Europa. “A emigração internacional está relacionada ao dinheiro. As pessoas vão para onde o capital está. Por isso, não é possível construir muros que impeçam a entrada delas”, diz Sueli.
Os dólares que atraíram os pais de Rodrigo e outros milhares de brasileiros para os Estados Unidos desde a década de 60 se transformaram no motor da economia de Valadares. A cidade, também conhecida como “Valadólares”, não tem grandes indústrias e vive de ciclos. Antes do dólar, que alimenta os setores de comércio e serviços, houve o da extração da mica. O mineral, usado como isolante elétrico, era exportado para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Foi nesse tempo que os valadarenses se deslumbraram com a prosperidade dos visitantes americanos. Depois, houve o ciclo da madeira e o da pecuária. A migração para os Estados Unidos se intensificou a partir dos anos 80. O Itamaraty estima que pelo menos 1,3 milhão de brasileiros vivem atualmente no país. Segundo a Prefeitura, cerca de 30 mil são de Valadares. Isso equivale a mais de 10% da população da cidade. Em mais da metade das residências, há pelo menos um membro da família tentando a vida lá fora. Quase todos são ilegais. Muitos hoje vivem em situação precária. “As remessas de dólares caíram nos últimos tempos. Elas representam um terço do orçamento do município, que é de R$ 350 milhões. Isso é preocupante”, diz o prefeito Mourão.
Além da crise imobiliária, a queda do dólar é outro fator que tem empurrado os brasileiros de volta para casa. “Se o dólar estivesse mais alto, eu teria ficado mais uns dois anos nos Estados Unidos”, afirma Edson Fernandes, de 53 anos. “Fui com a intenção de ganhar dinheiro. Tudo o que consegui foi comprado quando o dólar valia quase R$ 4.” Atualmente, a moeda americana está cotada em cerca de R$ 1,70. Fernandes vive com a mulher e os enteados no centro de Valadares. Nos seis anos em que morou na região de Boston, ele contribuiu com a Previdência Social brasileira. “Já tive negócio próprio, e não deu certo. Quem daria emprego para alguém na minha idade? Espero me aposentar em setembro”, diz. Nos EUA, Fernandes dava expediente em duas padarias. Entrava às 10 da manhã na primeira. Da outra, saia à meia-noite. Seis vezes por semana. Entre as duas jornadas diárias, às vezes preferia dormir a almoçar. Há cerca de um ano, precisou colocar três pontes de safena no peito. A notícia da cirurgia cardíaca foi dada à família por telefone. “Acho que isso aconteceu por causa do estresse e da má alimentação. É como dizem: a América dá o ouro. Mas, em compensação, a gente deixa o couro.”
O recuo do dólar derrubou as vendas no comércio de Valadares em cerca de 20%. A inadimplência, que era de cerca de 7%, mais que dobrou. Quem tem a moeda americana prefere não gastá-la enquanto a cotação não estiver mais favorável. Outros não conseguem se manter nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, sustentar a família no Brasil. Enquanto cerca de 30% das residências brasileiras são chefiadas s por mulheres, em Valadares o índice sobe para 67%, segundo uma pesquisa do Centro de Informação, Apoio e Amparo à Família e ao Trabalhador no Exterior (Ciaat). “A baixa do dólar impossibilitou a permanência de muita gente nos EUA”, diz Paulinho Costa, presidente da Associação de Parentes e Amigos dos Emigrantes do Brasil. “Quando o dólar subir, os valadarenses voltarão. Ir para lá é tão natural que as pessoas viajam como se fossem para Belo Horizonte.”
Francisco Mafra Lopes, de 38 anos, espera uma alta do dólar para trocar parte do que ganhou. “Guardei os meus dólares debaixo do colchão”, diz. “Só vou trocar o dinheiro quando o dólar subir.” Morador de Santa Rita de Minas, cidade de 5.800 habitantes a 130 quilômetros de Valadares, Francisco entrou nos Estados Unidos com a ajuda de um “coiote” (mexicanos que guiam imigrantes ilegais pela fronteira, evitando as autoridades). Foram 18 dias de viagem até chegar a Newark, a maior cidade de Nova Jersey. Primeiro atuou como carregador no porto. Depois, carpinteiro. “No começo eu trabalhava até 12 horas por dia.” Nos últimos três anos, trabalhando na construção civil, Francisco viu seus rendimentos recuar 25%. “Ultimamente, só conseguia trabalhar três dias por semana. A crise me fez voltar mais rápido para o Brasil. Se estivesse compensando, eu ficaria na América até 2012.” Francisco investe o que juntou construindo casas para aluguel. “Aqui um servente de pedreiro só consegue andar de moto velha ou de bicicleta. Lá, anda de carro.”
O número de brasileiros ilegais presos e aguardando deportação em Massachusetts cresceu 35% em um ano
Além da economia, o êxodo atual tem uma explicação política. Empregadores de alguns Estados têm exigido documentos que comprovem que os funcionários vivem legalmente no país. Quando trabalhadores clandestinos são descobertos pela fiscalização, a empresa é punida com multas altíssimas. Um dos projetos de repressão aos imigrantes ilegais em tramitação no Congresso americano pretende estender essa obrigação a todos os empregadores do país. Hoje em dia, muitos estrangeiros criam falsos números de seguridade social, uma espécie de CPF, e fraudam carteiras de motorista.
O aperto aos imigrantes aumentou no ano passado, depois que o Congresso rejeitou uma lei que poderia beneficiar 12 milhões de estrangeiros que vivem no país. Pela proposta, os ilegais que se apresentassem às autoridades e pagassem uma multa de US$ 5 mil receberiam permissão temporária de residência, o visto Z. Com ele, poderiam trabalhar por até 13 anos, aguardando o visto permanente. A lei também previa vistos anuais de trabalho temporário para 400 mil imigrantes. Em compensação, o governo ergueria mais de 600 quilômetros de cercas na fronteira com o México e contrataria 18 mil novos guardas. Como a lei não passou, o Departamento de Imigração americano começou a “caçar” ilegais em empresas que recrutam mão-de-obra menos qualificada. Sem dinheiro e correndo o risco de ser presos, os imigrantes começam a perder as esperanças. “Vale a pena ser ilegal e viver assustado?”, pergunta Maxine L. Margolis, professora de Antropologia da Universidade da Flórida, autora de um estudo sobre os brasileiros ilegais nos EUA. Só em Massachusetts, o número de brasileiros presos aguardando deportação cresceu para 200, um aumento de 35% desde o ano passado.
“Muita gente está vindo embora”, diz Alcimar da Silva Araújo, de 39 anos, conhecido como Mazinho. Ele viajou de Santa Rita de Minas para Newark dois meses antes de a mulher, Poliane, dar à luz Ana Carolina. Um ano depois, o casal estava junto, mas a filha ficou no Brasil com a avó. Ela só via os pais por fotos e por uma webcam. “Os meus colegas tinham pai e mãe, um monte de gente para perguntar as coisas. E eu só tinha a minha avó”, diz Ana Carolina. Mazinho abraçou a filha pela primeira vez quando ela tinha 7 anos. “Foi muito difícil. Mas naquele tempo não vi outra alternativa. Estava atolado em dívidas. Antecipei a volta porque não estava compensando mais ficar lá.” Mazinho trabalhou em um restaurante e na construção civil. Poliane deu duro como faxineira. O casal investiu os dólares em 30 hectares de terra e espera viver da agricultura. Querem agora plantar suas raízes na cidade.