28.8.07

DOCUMENTÁRIO MOSTRA VIDA E OBRA DE HENFIL E DE SEUS DOIS IRMÃOS

Graúna. Ao centro, Betinho


Henfil com a mãe, em Bocaiuva


É difícil ficar indiferente após assistir à exibição de "Três Irmãos de Sangue", documentário que estreou no último fim de semana. Há um lado apaixonadamente familiar, solidário e militante dos protagonistas que faz pensar. Muito. O documentário, finalizado em 2005, narra a trajetória comum dos irmãos Henrique de Souza Filho, Herbert José de Souza e Francisco Mário de Souza, ou, respectivamente, Henfil, Betinho e Chico Mário, como eram conhecidos. Os três viveram uma série de coincidências. Eram hemofílicos e morreram por causa da Aids, vírus que contraíram em bancos de transfusão de sangue. Pontos comuns que dão título ao documentário.Mas, ao invés de ser uma narrativa sobre a morte, a produção caminha em sentido oposto. Capta algo que era característico nos três: a necessidade de viver intensamente cada dia, antes e, principalmente, depois de saberem da doença.Todos queriam ser músicos. Henfil se imaginava até como um dos Beatles.
O sociólogo Betinho diz que desistiu depois de ouvir os primeiros acordes de Chico Mário ao violão. O talento dele, o único a seguir essa carreira, inibiu as aspirações dos demais. Betinho passou a se destacar como militante político, dom que o seguiu até a morte, em 1997. Viveu exilado, esteve à frente do Ação da Cidadania, movimento social de combate à fome, que apostava na solidariedade do brasileiro. Quem acompanha quadrinhos sabe exatamente onde Henfil se destacou. Ele representou para o desenho de humor brasileiro o que Quino - criador da Mafalda - significou para a área na Argentina. Mesmo grandes nomes do meio reconhecem isso. É o caso de Ziraldo, um dos entrevistados do documentário de Ângela Patrícia Reiniger. Ziraldo diz que o cartunista conseguia dar um ar absurdamente expressivo à Graúna, uma das criações de Henfil. "E só com três tracinhos no rosto dela", comentava, visivelmente espantado. A economia de traços era uma das características de Henfil.
Ele revela, numa gravação reproduzida em "Três Irmãos de Sangue", que sempre flertou com o movimento do cinema. Por isso, as linhas cinéticas (indicadoras de movimento nos quadrinhos) eram em geral onduladas. O recurso, segundo ele, acentuava o efeito de movimento no leitor. Outra cena de arquivo mostra o cartunista desenhando a Graúna e o Fradinho Baixinho. Como desenha rápido. Ele mesmo admitia.
Henfil morreu em 1988. Chico Mário perdeu a vida pouco depois, no mesmo ano. Betinho, como já comentado, foi o último a falecer, em 1997. Mesmo mortos, permanecem vivos por meio do trabalho que fizeram. O documentário é uma prova disso.



Em tempo: há outro documentário sobre Henfil, "Cartas da Mãe", de 2003, disponível na web. Duração: 28m
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